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Em busca do Leopardo perdido

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Aquele que um dia escreveu que é “preciso que tudo mude, para que continue tudo na mesma” disse que o seu romance Leopardo nasceu porque precisava da memória da sua Sicília antes dos bombardeamentos da Segunda Grande Guerra. Com a destruição de Palermo, corria o risco de perder a sua identidade. Das pedras que se põem a falar, José Sarmento Matos, ressuscita as pessoas que lá viveram, e restora-nos a um tempo e a uma cidade que se foi esquecendo por entre camadas que se sobrepuseram. Despontam é evidente, manifestações desses tempos: a Sé de Lisboa, a Cerca Fernandina, o Castelo, o Convento do Carmo, entre tantos outros edifícios. Nesta Lisboa que é um cenário montado junto ao Tejo, sobre-elevado em colinas ondulantes, o antigo e o novo convivem lado a lado. Uma cidade heterogénea, de traçados antigos mas também de boulevards modernos que, tal qual secções de pista de comboios de Natal, se associou àquilo que, de tempos imemoriais, se construíra nessas colinas. Uma cidade que nas...

Ser pelos valores, ou ser pelos interesses

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Creio que vivemos profundamente desintegrados. Enquanto proclamamos a moral, continuamos a agir como se ela não existisse. No mundo das empresas, o mais das vezes reina apenas a procura do lucro, sendo que o bom profissional é aquele que tem um desempenho mais eficiente e que traz resultados. Nunca vemos uma empresa como uma unidade orgânica, enraizada na sociedade, com responsabilidades. O primado vai antes para o desempenho. Neste Natal conversei um pouco com o João, que é médico. Estava eu a dizer-lhe que talvez como em nenhuma outra profissão se viva hoje no confronto entre a humanismo e o utilitarismo como na profissão médica: como poder avaliar o acto médico se o critério é o da eficiência? O que é a eficiência considerada em termos médicos? É curar a pessoa? É curar a dor? É curar a doença? No passado, se calhar, seria curar a pessoa. O médico era um alquimista. Era um sábio.  Comecei por dizer que vivemos profundamente desintegrados. Vivemos assim porque em sociedade ...

The world is bound to belong to its most active elements

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Quem o disse sabia do que estava a falar, não fosse ele um estudioso da evolução. Pierre Teilhard de Chardin: "Personally, I stick to my  idea  that we are watching the  birth , more than the  death , of a  World .  The scandal for you, is that  England   and  France  should have come to this tragedy because they have sincerely tried the road of  peace . But did they not precisely make a mistake on the true meaning of "peace"?  Peace cannot mean anything but a HIGHER PROCESS OF CONQUEST. … The world is bound to belong to its most active elements.  … Just now, the  Germans  deserve to win because, however bad or mixed is their spirit, they have more spirit than the rest of the world. It is easy to criticize and despise the  fifth column . But no spiritual aims or energy will ever succeed, or even deserve to succeed, unless it is able to spread and keep spreading a fifth column". Letter from Peking ...

Gonçalo Mendes Ramires, dos ilustres Ramires de Santa Irineia

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Gonçalo Mendes Ramires, dos ilustres Ramires de Santa Irineia, fidalgos mais antigos que o próprio Reino. D. Quixote andou pelas leituras de Eça. Nota-se porém o desmorecimento da raça e o idealismo fica-se apenas nas intenções e nas palavras e Eça goza com Herculano, pintando um ideal de cavalaria que é senão uma projecção da nossa necessidade de encontrar heróis e construir mitos.  A inconsequência de Gonçalo, a sua inconsistência e contradições: o urdir da personagem no confronto com o desenrolar dos acontecimentos e a vontade de ser "alguém" é muito cómico. Um alguém que se faz muito mais por força do status quo, do lugar que lhe supostamente lhe é devido por ser um ilustre "Ramires", do que por um trabalho interior. Ele apenas é escravo das imagens de si, dos idealismos de sua juventude e da posição social que lhe confere o tempo e os meios para não ter que trabalhar verdadeiramente. Não há nenhum verdadeiro empenhamento que vem da responsabilidade, apenas a...

Rómulo de Carvalho e António Gedeão

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A par com as profissões ligadas com a Saúde, não há actividade que presuma mais o outro que a Educação. Há uma génese altruísta na Educação, que não se encontra na Política, que não se esquecendo do seu fim último, quer se queira quer não se perde nessa arte de "alcançar o poder e o manter", ou mesmo na Arte - que é a busca da Beleza, e como pode ser difícil esta busca, tão pouco altruísta no seu processo... Sendo assim, quem se ocupa da educação de outrém exerce, por força do hábito, a virtude do descentramento de si; o encontro do outro é uma arte, que exige antes de mais a escuta, a observação e também tempo, desculpe-se a redundância, pois se é arte, ela é sempre uma práxis, uma dinâmica.  Ela faz-se sempre por dois sujeitos. Há sempre pelo menos dois sujeitos. O exercitado; o que dá o exercício. Caminha-se como? Caminha-se com o mais experiente. Com o mais sábio. E caminha-se para quê? Caminha-se sempre para mais consciência, para mais humanidade. Para se ...

Mau feitio

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Trata-se de quê?! Urgência ou apenas impaciência? Lembro-me do Padre Burguete, ele cortava a direito, dizia tudo com uma grande frontalidade, não tinha quaisquer "falinhas mansas" - podia talvez parecer arrogante. Mas não era. Indignava-se perante a mentira e as falsas desculpas, aquelas que revelam o querer "safar-se" descuidado e preguiçoso, o querer "dourar a pílula" e o descompromisso. Na procura da felicidade. Tentando ser livre, livre de jogar o jogo das aparências, do que é o engano. Há um mimetismo frequente. Custam-nos as posições isoladas, gostamos muito do compromisso. O Pe. Tolentino no seu novo livro feito de pequenas reflexões diz que raramente os educadores se preocupam com as grandes virtudes. Concordo em grande medida. São poucos os educadores que dizem: "fizeste bem em ser generoso"; "a tua atitude foi nobre". Ensina-se muitas vezes mais a prudência do que a coragem. Há uma frase de que gosto: "é melhor t...

De volta

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1. Regressei a Portugal faz agora 13 dias. Sinto-me bem de volta a Lisboa, gosto muito do estilo de vida que tenho nesta cidade. Em Belo Horizonte estive a conversar com o Marcus Martins, arquitecto/urbanista, pessoa que conheci no ano passado através do Vasco meu irmão. Não é novidade, mas o Brasil vive presentemente numa grande crise. Desnorte, falta de identidade, corrupção generalizada. Há uma descrença enorme no seu Futuro. O Marcus quer sair do Brasil, ele tornou-se para si um local onde não quer viver. No Rio de Janeiro, uma iniciativa chamada "Reage Rio" procurou discutir uma série de questões-chave para o futuro da cidade. A primeira questão é a da segurança (desde o início do ano, já morreram 100 polícias) e o narcotráfico prolifera. Depois de 2 dias de debate, aprovaram 50 medidas, em aspectos que vão da segurança, da economia e da promoção do empreendorismo, à mobilidade e à promoção de uma sociedade mais ética. Embora sendo uma iniciativa meritória, o Marcu...