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A mostrar mensagens de Dezembro, 2020

Para não matarmos a alma

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ALGUNS DICIONÁRIOS COLOCAM COMO SINÓNIMOS DE PRODUZIR OS VERBOS GERAR E CRIAR, O QUE É UM EQUÍVOCO. NÃO SE DIZ “PRODUZIR UM FILHO”, MAS SIM GERAR, POIS UM FILHO É FRUTO DO AMOR O verbo produzir, que se tornou nas nossas sociedades um parâmetro obrigatório de avaliação da atividade humana, é, no fundo, um verbo parcial e pobre para descrever aquilo de que se pretende avizinhar. Produção, produtividade, produtivo, produto podem ser termos úteis para a elaboração estatística ou para a composição do arsenal de gráficos e grelhas com que se tenta capturar a morfologia da vida, mas não tocam, nem de longe, a vida no seu âmago. Há nessas palavras — na verdade, mais apropriadas para a máquina do que para a pessoa —, uma deliberada supressão da complexidade da nossa experiência sobre este mundo, um cinzento camuflado de neutralidade face àquilo que a vida é. Por isso, que esse vocabulário seja hoje triunfante, e sonambulamente disseminado como modelo de compreensão do real, diz muito sobre a

Avaliação ao final dum ano

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Agora que chegamos ao fim deste ano, seria bom fazermos uma espécie de avaliação donde estamos e para onde pretendemos ir. Este texto poderá ser útil para tal exercício: Cada um de nós tem uma imagem, mesmo que vaga, daquilo que pretende fazer na vida: se está longe do objectivo, o indivíduo torna-se triste ou resignado; se o atinge pelo menos em parte,  experimenta um sentimento de felicidade e satisfação. Para a maior parte de pessoas na terra, o objectivo fundamental da vida é sobreviver, deixar crianças que sobrevivam e, se possível, fazê-lo com um certo conforto e um mínimo de dignidade.  Logo que os problemas de sobrevivência são resolvidos, as pessoas não se contentam mais com esse nível de vida e novas necessidades e novos desejos surgem.  Com a abundância e dinheiro, a escalada de expectativas conduz a novas exigências, mais conforto e mais riqueza, de maneira que o nível de bem-estar desejado fica longe. Cyrus, o imperador da Pérsia (séc. VI A.C.), tinha necessidade de dez mi

Na simplicidade, a beleza

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Uma das características que quem conhecia Eduardo Lourenço nele apreciava era a simplicidade. Num  programa que passou recentemente na televisão, um autarca que falava da terra de Eduardo Lourenço dizia que essa qualidade era própria dos grandes homens. A simplicidade é rara. Porque ela tem que ver com deixarmos o supérfluo e nos centrarmos no essencial. Um amigo meu, o Gonçalo Martins Barata, há cerca de 10 dias  fez em frente da Sé de Elvas uma brilhante dissertação sobre os estilos arquitectónicos, desde o Românico até ao Romantismo. São verdadeiramente diversos os estilos que na história e, na nossa em especial, foram tendo as igrejas. Também há tempos conversava com um amigo jesuíta, arquitecto e especialista em litúrgia, sobre os espaços das igrejas, e ele me dizia que, tão importante quanto a parte espiritual, era o sentido de comunidade que o espaço pode permitir, dando o exemplo, da Capela do Rato. Relembrava-me também o Gonçalo uma história de Filipe II de Espanha, que

Alentejo, vasto espaço, vasto tempo (a road trip)

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  “ Além Tejo…  além Tejo ”,  sussurra o vento…  enquanto ouvimos António Chainho & the London Philarmonic Orchestra   (e ste é um roteiro pelos 5 sentidos) Lavados os olhos no largo estuário como que a marcar a transição e a preparar a vista para um espaço diferente que aí vem, o carro avança em rumo certo, vencendo o vento que nos sussurra “ Além Tejo, Além Tejo… ” Sem complacências, abandonamos a cidade de Lisboa, o nosso ponto de partida, rumo às extensas planícies do sul, onde o tempo é um outro.  O carro avança e passada a nua Serra da Arrábida e quase com a ponta da mão recolhendo uns cachos periquita, é numa comprida descida - não muito longe de Vendas Novas, que se nos enchem os pulmões com a primeira grande golfada de ar do Alentejo. A promessa sussurrada torna-se então numa feliz realidade: o relevo arredondado de pequenos montes a perder de vista, bem enriquecidos pelo despontar de viçosas árvores, algumas delas em presença solitária, mas garbosa. O Alentejo, a m