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A mostrar mensagens de 2018

Ainda sobre ser advogado

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Quando era jovem com amigos tivemos uma associação que se chamava KÁPATI. "Cá para ti". Nesta palavra que condensava um projecto, estava lá tudo: estamos aqui para ti, para em proximidade vivermos em conjunto e nos ajudarmos. A idéia era estarmos com jovens e crianças de um bairro menos bom. Os rapazes creceram, houve uns que se tornaram pessoas válidas e competentes, talvez tenhamos sido úteis nesse seu crescimento.  Ser advogado pressupõe também essa presença. Esse pegar no chapéu-de-chuva que eu há uns dias assumia como ser algo bonito que se faz a alguém: proteger alguém dos pingos da chuva, levar alguém numa caminhada.  Lembro-me do Pe. Eduardo e de nos sentarmos a conversar em duas poltronas. Há algo de muita confiança que se pode estabelecer também numa relação entre um advogado e um cliente. KÁPATI ficou.

A Burocracia Criativa

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Decompondo a expressão "burocracia criativa" em cada um dos seus elementos constituintes, temos duas coisas dificilmente conciliáveis... ou talvez não! Penso que o taoismo nos dá algumas chaves de leitura nesta questão: o "Yin" e "Yang" são conceitos que expõem a dualidade de tudo que existe no universo. ”Descrevem as duas forças fundamentais opostas e complementares que se encontram em todas as coisas: o yin é o princípio feminino, noite, Lua, a passividade, absorção. O yang é o princípio masculino, Sol, dia, a luz e actividade. Segundo essa ideia, cada ser, objecto ou pensamento possui um complemento do qual depende para a sua existência. Esse complemento existe dentro de si. Assim, se deduz que nada existe no estado puro: nem na actividade absoluta, nem na passividade absoluta, mas sim em transformação contínua” (Wikipedia). A criatividade não é feita sem memória. A memória precisa também da criatividade e há estudos que demonstram que a criativida

How to Cope With Bureaucracy

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Singing In The Rain - Singing In The Rain (Gene Kelly) [HD Widescreen]

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The Umbrella

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Conseguirá o chapéu-de-chuva sobreviver ao mundo moderno?!

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Lembro-me de passear pelas ruas de Lisboa apoiando o movimento no meu chapéu-de-chuva. Sempre gostei deste gesto, diríamos hoje pouco inclusivo, um tanto ou quanto identificado com alguém de privilégio. Um sinal exterior de privilégio. E hoje os sinais de distinção escondem-se porque ninguém quer ser tido por ser "BCBG". Além disso, os hábitos estão infectados pelo que se deve ser: moderno. Pode andar-se de calças rotas na rua e com headphones e isso passa mais pelo que está correcto, do que uma pessoa a passear-se com chapéu-de-chuva, arremetendo-o para cima e para baixo, ao ritmo da sua passada. Isso é presunçoso. E são poucos os que o fazem. Quando andava num colégio e todos os dias envergava a farda, por vezes caminhava por Lisboa, nomeadamente quando estudei inglês no Cambridge Institute. Gostava muito daqueles passeios pelos Restauradores. Mas aí tinha 16 ou 17 anos. Vivia num mundo à parte. E passeava-me de chapéu-de-chuva para a frente e para trás. O chapéu-de-ch

A luz

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Hoje estive no Miradouro da Graça, espreitando a cidade de Lisboa depois duma volta demorada pela Feira da Ladra. Do alto, o busto de Sophia de Mello Breyner Andersen. Deveria gostar de se sentar por ali, gozando a luz de Lisboa em dias de Outono como o de hoje, espreitando os bairros e a diversidade do casario nesse arrevesado de ruelas que, como regatos, serpenteiam, se cruzam entre si, entrocam em rios maiores tipo eixo da Almirante Reis ou se esgotam já sem energia e cansadas em becos antigos, de paredes de cal desfeitas pelo tempo. Nas escadinhas do Chiado e de S. Paulo vemos as vistas que Botelho deixou impressas nas suas telas com inegável beleza, as casas de tons variados irradiam luz. O rio omnipresente, mesmo que não presente (passe-se a contradição). Diz José Gomes Ferreira: "Na primeira manhã que acordei em Lisboa - tinha eu quatro anos - vim brincar para a rua com outros garotos e apanhei uma pedrada que me marcou a testa para sempre. Na mesma ocasião, pegou-se-m

Fazer-se advogado

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Não nascemos advogados. Tornamo-nos já depois de uma já relevante caminhada.  A nossa vida faz-se de muitos fios que vamos entrelaçando uns nos outros ao longo do tempo. Embora possamos dizer que o que fazemos como profissão seja um elemento essencial da nossa identidade, é bom que não nos prendamos a uma imagem fixa, imóvel da mesma e que a mesma não seja um paliativo para uma personalidade fraca, incompleta. Diz-nos Anselm Grun (o Desafio Espiritual da Meia-Idade: "a reacção frequente, como defesa em relação à insegurança, consiste em apegar-se com força e sem humor à sua própria pessoa e identidade, à profissão, às ocupações ou a um determinado "título". Jung crê que essa identificação com a profissão ou com o título tem «algo de sedutor e, por isso, tantos homens se resumem apenas e só à dignidade que a sociedade lhes concedeu. Seria inútil procurar neles uma personalidade por trás da casca.  Atrás das grandes aparências representativas, não são mais que um in

Manifesto anti-informática

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Não gosto nada de informática e fico revoltado quando a máquina não faz o que quero! Eu sou das humanidades, do contacto directo, não mediado pela máquina. Sobretudo quando a máquina não funciona! A internet que tenho (o wifi, ou como isso se chama) não presta e estive quase 30 minutos à espera antes de poder começar a escrever este texto. Mas já agora aproveito para dizer mesmo que não gosto de máquinas e que tenho quase raiva a quem gosta destas coisas. Quando trabalhei num escritório com mais pessoas, havia o chamado "grupo dos gadjets" e eles volta e meia levavam-me com eles para, imaginem, o Colombo! Iam almoçar e depois enfiavam-se na FNAC e na Worten. Que horror, ir à FNAC para ver computadores! (Eu só ía porque apesar de tudo adoro livrarias, e a FNAC é uma livraria). Eu não gosto de computadores! Não gosto de máquinas! Tenho horror a aparelhos. Tenho horror sobretudo quando avariam.  Eu sou das humanidades. Eu sou um velho. As pessoas  devem-me achar um v

VUCA e liderança

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Chris Lowney, autor do best-seller "Liderança Heróica", que reflecte sobre a forma de actuar dos Jesuítas e sua história, considera que há determinadas características que fazem deles modelos de liderança para o mundo dos nossos dias. Antes de mais, o auto-conhecimento: saber quais as nossas características, os nossos pontos fortes e os pontos fracos.  O que queremos da vida? E o exercício permanente do que pretendemos e a sua recapitulação. Outras características como o engenho, ou seja a capacidade para viver num mundo de mudança, adaptando-nos ao mesmo e reflectindo de acordo com a nossa escala de valores (lembro-me dum curso de relações humanas que fiz com o Pe. Alberto Brito em que ele dizia que devemos ter UNIDADE, na CONTINUIDADE, com INTEGRAÇÃO ). A coragem e mover-nos mais pelo amor do que por outras motivações. O título da entrada hoje é "VUCA" , acrónimo para "volatile", "uncertain", "complex" e "ambigous".

Memórias

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Naquele ribombar suave do mar, com a leveza tranquila de quem não tem pressa, uma família, unida pela alegria reconfortante da beleza do lugar e abençoada pelo relevo esverdeado e ritmado dos montes circundantes - de onde palram os grilos, conversa na tombadilha. O peixe inunda o espaço do fumo da grelha. Uma garrafa de branco dá-se em verso no copo de cada um, enquanto o barco balança ao som de Frank Sinatra . Tempo para mais um mergulho ainda! Enquanto dum só salto se lança, uma recordação antiga reacende-se: aquele assomo da criança que tentava chegar à superfície da água da piscina, rasgando com braços nervosos a massa de água pela sua frente; um pai e uma mãe, um de cada lado, com os seu braços abertos, na aposta que ele conseguia! Ao princípio é assim: a confiança que lhe tinham era também a sua! O orgulho em agradar aos seus pais, disso se faz muito o crescer duma criança. Um dia, dentro duma secretária de madeira, abrindo a tampa que se abria do alto, um cartão premiav

Much ado about nothing

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Sempre acho que fui mais de ver as coisas pelo lado positivo, do que pelo lado negativo. Por vezes, em certos meios, assiste-se a teorias da conspiração tipo "eles são" isto ou aquilo. "É a maçonaria que esta por detrás" disto ou daquilo. São os "socialistas", são estes ou aqueles. "É o papão que aí vem" e que nos vai comer a todos. A política está cheia de parangonas e de proclamações. Faz-se facilmente generalizações, condena-se muito rapidamente. Quando se pretendeu dar o título "Cities under Pressure" ao evento que teremos em breve em Lisboa e em que discutiremos o mercado imobiliário, o acesso à Habitação e o Turismo, não gostei incialmente do mesmo. Pareceu-me um pouco exagerado.  Não alinho, nem um pouco no discurso do Bloco de Esquerda, desmascarado recentemente pela sua falsidade. Prefiro olhar para números, para dados estatísticos para retirar conclusões.Isto dá mais trabalho, mas naquilo que fazemos na Build the Ci

Diferenças culturais

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Julgo que a riqueza da Europa se faz da sua diversidade. No outro dia comentava as palavras do meu amigo José Sarmento de Matos que me disse já por várias vezes que os portugueses são dentro da Europa os comunicadores por excelência. Vem-nos isso da nossa posição geográfica, como finisterra , local onde se fixaram povos porque não havia mais para onde ir: o grande oceano é um abismo difícil de suplantar; no entanto, em terra firme, um clima soalheiro e temperado e um ambiente simpático para se viver; na expressão da outra senhora, "um jardim à beira mar plantado". Dá preguiça sair de Portugal, é mais fácil ficar do que sair. Uma terra assim, não é um local de passagem, mas de fixação, de sedimentação.   Naturalmente que hoje, com os aviões, circulamos facilmente por todo o lado e que a nossa posição periférica se atenuou. Mas o substracto cultural dum povo que se habitou à diversidade e ao diálogo ficou-nos. É surpreendente o número de portugueses em posições de grande r

Vida feliz no meio da tribulação

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Diz-nos o Pe. Tolentino no seu recente livro sobre as perguntas que alguns homens que viveram prisões e perseguições terríveis tiveram no meio da tribulação uma vida feliz porque algo maior prendia o seu coração. Podia ser a a visão de algo bonito, quer-me parecer que pode ser a ideia de uma grande utopia, um grande amor. Aquilo que nos prende o coração, dá-nos esperança e leva-nos a sermos fortes. Nesse sonho, tem que haver ternura e carinho para nos fazermos humanos, mesmo que isso nos faça vulneráveis. Sim, porque na vida tudo o que nos endurece e torna-nos "fora de nós" é sinal de fuga, de descentramento. O difícil é que "continuemos dentro" e que nos abramos ao mistério das coisas. Fazer-nos duros, impassíveis, é fecharmo-nos ao mundo. Mas termos a capacidade de nos comovermos e nos entusiasmarmos, isso sim! Ser forte não é ser duro, ser forte é apesar de tudo não perder a nossa candura e continuar para a frente. E reparar nas coisas bonitas que o caminho nos

Ser advogado

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O QUE É VERDADEIRAMENTE UM ADVOGADO? Um parceiro? Um amigo? Sempre gostei de pensar na relação advogado/cliente como uma relação de parceria. Segundo Fried, um professor americano, o advogado será alguém que guia o cliente no sistema legal: “as instituições sociais são tão complexas que sem a assistência de um consultor especialista, um leigo comum não pode exercer a autonomia a que tem direito dentro do sistema”. A função do advogado seria assim “preservar e incrementar a autonomia do cliente dentro da lei”, sendo que etimologicamente “advocatus” derivou da expressão latina "ad auxilium vocatus" (o chamado para auxiliar). Hoje sistema legal é tão complexo, difícil de enxergar e aplicar, que só alguém formado para o efeito tem ferramentas para se orientar nesse sistema. Com a produção legislativa abundante, o velho ideal liberal de que o cidadão deve conhecer a lei e que se plasma na máxima de que “a ignorância da lei não aproveita a ninguém”, resulta em algo hoj