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A mostrar mensagens de 2016

Ser mulher hoje

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Alexandr Solzhenitsyn disse que a sociedade ocidental carece de coragem.  Vivemos tempos únicos. O capitalismo chegou a todo o lado, venceu o comunismo que tanta destruição e sofrimento trouxe ao mundo. O grande desafio das nossas sociedades é construir um mundo de paz, de cooperação, de entendimento. No entanto, vivemos com muitas crises e o mundo é feito ainda de muita dor. Provavelmente o mundo e as nossas sociedades sempre serão feitos de dor. A condição humana é viver na imperfeição, na incompletude. O próprio diálogo humano é difícil, tolhido por muitos obstáculos, por muita desconfiança. Damos graças a Deus por viver no Mundo Ocidental, por partilharmos valores de liberdade, de livre iniciativa. É isso que nos torna uns privilegiados: saber que podemos escolher como pretendemos viver, como pretendemos orientar a nossa vida. A União Europeia, com todos os seus defeitos, com a lentidão das super-estruturas, é, apesar de tudo, um compromisso de cooperação, onde pelo menos na

Taizé

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La paix de Dieu. Si on peut faire du monde un lieu de la comunion - c'est la parole mais aussi la realité vecú. En Taizé, le silence, la fraternité c'est possible. A fragilidade. A fragilidade do verdadeiro, da verdade. Que não se protege e que levou até à morte do seu fundador. O irmão Roger sonhou uma comunidade de amor, onde se seja irmão, filho de Deus. Esta é uma comunidade de amor. Uma comunidade onde Deus está presente, da bondade do coração.

Sicília

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Perto de minha casa, no Poço dos Negros, sinto-me em Palermo, Sicília. Os prédios apalaçados em ruína, a sujidade e o calor que liberta os odores, a roupa pendurada nas janelas. No ano passado, o meu Verão, passei-o na Sicília.   Não sei porquê, mas há um em mim que gosta disto, da sujidade e da "ordure". Há um em mim que gosta de andar assim, de calções e t-shirt, de mochila às costas.  Adoro cidades, adoro o movimento que as cidades têm. Da mole de gente que se "passeia" pela cidade.  Se gosto de Estocolmo, também gosto imenso da Baía. Se gosto imenso de trabalhar, também gosto imenso da moleza duma "tarde em Itapuã".  Assim, ontem, enquanto bebia uma caneca de cerveja e um pita shoarma no Poço dos Negros, a minha mente voava para Palermo, para aquela rua suja, rodeada de lindos mas decrépitos palácios e que é a grande artéria dessa cidade, que passa pela catedral. Pensava em Lampedusa, recordava-me de Nicoletta Polo, casada com Giachi

Democracia directa

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No outro dia tive uma discussão com um amigo meu. Ele dizia que odiava o Costa, que ele era um sem carácter. É muito difícil discutir com alguém que apenas se baseia em ódios/amores pessoais, pois não há argumentação possível. O que eu lhe dizia é que sob o plano jurídico e até no jogo democrático-representativo que é o que temos hoje em dia nas nossas sociedades, é perfeitamente possível um governo cair na assembleia e foi o que aconteceu. Ele dizia que o que ele fez foi trair a confiança dos portugueses, que devia então ter dito que iria formar uma coligação, coisa que ele nunca disse que iria fazer. Eu não sei se ele deveria ter dito, o que me parece é que ele não sabia que iria perder as eleições - essa é que é a verdade. E depois tudo são conversas.  Lisboa está debaixo de grandes obras públicas. Praças, avenidas. Não tenho dúvida que tudo ficará melhor. Muito mais verde. E certamente melhor. É assim que deve ser a tendência, cidades mais agradáveis para se viver. Mas muitos

Alice and Helmut

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Conheceu Helmut na Rockefeller Chapel, no final de um concerto que festejava os 10 anos sobre o fim da Guerra. Tinha ele então 25 anos, acabara os seus estudos de Engenharia Mecânica na Universidade de Chicago e começara há já 2 anos a trabalhar na General Motors. À saída do concerto, mesmo à porta da capela um bem vestido jovem, alto e louro, estendera-lhe uma linda flor, uma rosa, e juntara ao gesto a seguinte frase: “era de longe a mais bonita a tocar na orquestra… não posso deixar de dizer-lhe que depois dos escombros e da destruição, ainda nascem lindas rosas como você”. Fora esse o princípio. Um ano depois casaram. Helmut trabalhava muito, a GM estava florescente; cada novo ano uma série de novas cidades se erguia do 0, toda uma nova rede de ligações por auto-estrada. Cada família adquiria um automóvel; em cada casa um frigorífico, um televisor, uma garagem e um jardim (coisa que para Krutchev custara ouvir de um ufano Nixon). Truman era então Presidente. Pouco tem

Back to basics

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Ser criança, olhar para tudo com olhar de entusiasmo. E se todos fossemos criança. Como seria o mundo? Todos os maus já foram crianças. Já andaram de fraldas, já gatinharam, já deram os primeiros passos. Todos na rua com quem nos cruzamos já foram crianças: o taxista que nos leva até a uma reunião algures; a pessoa que nos atende ao balcão dum café antes de entrarmos na dita reunião; as pessoas na reunião. Qual seria a primeira coisa que faríamos se fossemos crianças? Festejaríamos o facto de descobrirmos alguma coisa. Que o táxi Mercedes tem um braço para apoiar e que desce, por exemplo. Que o taxista tem um bigode "muita giro". Que a reunião onde temos as pessoas sentadas tem umas cadeira muito antigas e muito chiques e que estão todos muito bem sentados e de gravata. Quando víssemos alguém a gritar com outra pessoa qualquer era porque lhe tinham tirado alguma coisa dela sem lhe perguntarem primeiro. Ou porque em casa alguém a tinha "chateado", e ela es

Mergulho no mar

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A aproximação não é fácil porque o mar não é muito convidativo: a beira-mar inclinada a obrigar o bíceps da coxa a estar em tensão, as ondas desobedientes a uma ordem certa e, sobretudo, o primeiro impacto dos pés com a água desencorajante, por razões eminentemente térmicas.   O corpo entrando no mar: os músculos, alguns deles retecidos, outros como os da barriga encolhidos, o esqueleto em sentido. Duas estratégias diferentes: permanecer esperando até que, já banhado pela espuma e salpicado pelas ondas, em gestos tímidos se avança passo a passo; acometer-se num mergulho - cuja decisão ainda assim é por uma ou duas vezes adiada - à frieza das águas. Eu acho que nunca se entra na água da Praia Grande sem certa dose de ímpeto afirmativo; sou pois absolutamente defensor da segunda estratégia definida. Poderia haver aqui um quê de exibicionismo, mas manda sobretudo a fidelidade a uma identidade pessoal filiada a uma pertença colectiva. Mas, para mim, é antes de mais e acima de tudo,

Jorge Silva Melo e Lisboa. Aprende-se a mudar até morrer!

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Jorge Silva Melo é um homem de quem eu gosto. É uma pessoa honesta, interessante, que diz o que pensa. Não alimenta ódios.  Não tem uma coisa que me irrita em muitas pessoas de esquerda que é acharem-se detentores da verdade e, mais do que isso, terem um discurso arregimentado. Encontro esse discurso muito arregimentado no "mon ami" Soares. O velho Soares sempre se achou com direito de discutir quem são os bons e quem são os maus, quem os que se deve amar e quem se deve despeitar. Ouvi-o hoje numa entrevista na Antena2. É uma pessoa com uma memória prodigiosa. É um tipo agradável, simpático, um bom conversador, parece muito humano. Não o conheço muito bem, mas gosto dele. Hoje dizia na entrevista que deu, que a sua Lisboa encolheu. Ter-se-á tornado a cidade menos interessante?! No outro dia falava eu com umas turistas belgas e lhes dizia que, para mim, a cidade de Évora é a cidade mais bonita de Portugal... depois reflecti cá para mim... será mesmo?! Seria eu capaz de of

Frescos

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Terminou há dois dias uma série que passou na RTP, inspirada na Guerra e Paz de Leo Tolstoi. Feita pela BBC, divide-se em 6 episódios. Uma história bem contada, com uma clivagem talvez maniqueísta  entre bons e maus  - mas, por isso também interessante, porque cheia de contrastes e que em todo o caso seria provavelmente difícil de quebrar numa série - mas em que o principal é transmitido, isto é, a redenção que nos surge muito pela depuração de si próprio, pelo grande instrumento do sofrimento e do tempo. O nome não podia ser mais indicado: é guerra e paz no mundo material, a alternância entre estabilidade e instabilidade no período conturbado das Invasões Francesas; mas são sobretudo os tormentos do coração e as grandes paixões da alma que dão continuidade e que, sob o cenário dos encontros ou desencontros que o movimento das tropas vai potenciando, vão tecendo a história e as suas personagens.  Agora só falta ler os vários volumes! Não há muito tempo li o Leopardo de Giuseppe

Beleza

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O que é a beleza? Duvido que alguém não a reconheça quando a vê, ela é completamente evidente. Um exemplo: uma mulher bonita, ninguém fica indiferente. A beleza toca-nos. Uma bela paisagem, alguém duvida que ela o seja? Mas será que ela é solene? Solene, no sentido em que ela é formal? Poderemos nós, hoje, ter o culto apenas do banal? Do que é normal? Mas eu creio que a beleza não é solene, ela pode ser solene, Versailles é solene, mas uma casa de pedra numa pequena vila de França, um cottage numa quinta inglesa, um ribeirinho a correr com água fresca, são imagens de beleza que nos dão paz, e não são solenes. Uma paisagem pode ser solene: a descida para a Fajã do Santo Cristo nos Açores é uma imagem solene. É duma solenidade quase religiosa. Divina. Mas a fealdade também pode ser solene. Vejamos a opolência de um Ceausescu em Bucareste no seu horrível palácio; a solenidade da Coreia do Sul.  Não, a beleza não é solene.  A beleza só nos faz acordar e por vezes faz-nos

Escultura

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Do que mais gostei quando visitei Roma ou Paris foi de ver escultura: na Villa Borghese em Roma uma pequena colecção de Bernini transporta-nos para outro mundo; em Paris, no Museu Rodin, ali bem perto de St. Germain, entramos num universo táctil em que o corpo humano transparece na sua mais expressiva das maneiras. Bernini é sublime, um génio que parece dar vida ao mármore branco. Dos aspectos de que mais gosto em Rodin é das mãos, da beleza do conjunto que as mãos representam: a mão é sempre mais que a soma dos dedos. Rodin dizia que a forma vem antes da idéia. A plasticidade dos materiais, o moldar a matéria, a luz e as sombras: a obra que se faz. A felicidade que deve ser esta vida de criação, dominando a técnica e fazendo descobrir o que as formas vão mostrando. O processo criativo do desbravar, do rearranjar à medida que o olhar vai pousando na peça que vai sendo sujeita ao escopo e ao martelo. O corpo humano é uma peça de arte, velho ou novo, nele está um objecto c

Oportunidades

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Creio que uma das razões porque Robert Kennedy afirmou que se dedicava à causa pública era porque dizia que tinha sido muito abençoado na vida e que tinha tido oportunidades que faziam dele um privilegiado. Recentemente, enquanto os vários canais de televisão faziam um apanhado dos melhores e mais marcantes momentos do ano, dei por mim a ver a muito aguerrida e muito pouco feminina Serena Williams, a já há vários anos n.º 1 Mundial de Ténis.  Lembrei-me dos meus tempos de voluntariado com jovens em Sintra, em que além doutros tínhamos uma família de vários irmãos, em que preponderavam 2 irmãs bem activas e enérgicas. Eu baptizei-as de "irmãs Williams".  O fenómeno do sucesso de Venus e Serena deve-se talvez a um pai fora-de-série, que dum bairro pobre lutou para que as suas filhas fossem "alguém na vida". E de facto conseguiu. A experiência do Kápati (Cá-Para-Ti), o tal voluntariado em que estive durante muitos anos envolvido foi uma experiência humana ex

A Capelinha

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O primeiro encontro "a sério" com a "Senhora Marquesa" foi há já muitos anos, quando o meu primo Nuno e eu, rapazes de calções e aventureiros campesinos, nos encontrámos à saída da Capelinha da Piedade e recebemos um convite inesperado. Havia o hábito, já do meu avô Augusto, de lá ir aos Domingos à missa do meio-dia; o meu pai brincava sobre o Frei Francisco (que mais tarde vim a saber ser um franciscano de grande prestígio nos meios da história, um estudioso, e que dava pelo nome completo de Francisco Leite de Faria) que - por tão velhinho e por ter uma voz tão arrastada, dizia sair da gaveta sempre que rezava missa. Era a chamada "missa da gaveta", com o "Pe. da gaveta"! Ora, estava eu a dizer, ao início, que certo dia, penso que depois de irmos cumprimentar a Senhora Marquesa, que ela nos diz para irmos a casa dela que tinha uma coisa para nós. Os dois, contentes, em pouco tempo batemos à sua porta, na Quinta da Piedade. O Milro - o chauffe