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A hora legal e o Senhor Tempo

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Há um senhor que eu encontro no Chiado que se veste de fato e gabardine e que não gosta de grandes conversas. Passo por ele todos os dias, cumprimento-o, ele levanta o chapéu em gesto decidido, olha em frente e segue. Já tentei entabular conversa, perguntar o seu nome, perguntar o que faz, mas ele nunca me deu a oportunidade de parar um segundo. No outro dia encontrei-o junto às bancas de alfarrábios, ali na rua Achieta, era um Sábado, demorava-se remexendo em gravuras, mas entretanto, quando dele me aproximava, deram as badaladas da torre dos Mártires - e ele, em passo apressado, seguiu o seu caminho sem me ver. No dia seguinte, quando mudou a hora, no Domingo, encontrei-o impecavelmente vestido, na Brasileira, tomando um café ao balcão. Ouvi-o dizer que o relógio estava atrasado, que o deveriam acertar, que grande perigo adviria se não mudassem as horas do relógio. Entre as igrejas do Chiado e a Baixa, oiço regularmente as badaladas das torres sineiras darem as horas e não raro vejo

Uma avalanche de boas emoções

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As emoções são selectivas e gostam de andar em grupo, associando-se sempre em duas grandes famílias: a família das boas emoções e a das más emoções. Andam unidas, de mãos dadas, vão para todo o lado juntas. Há nelas uma tal solidariedade que o medo não gosta de estar sozinho e normalmente procura a ansiedade; esta por sua vez é muito amiga do nervosismo. A família é grande, vê-se nelas a marca da negatividade: umas delas são mais afins do que outras, como por exemplo entre a preocupação e a ansiedade notam-se parecenças evidentes como o senho vincado e as costas curvadas em sinal de peso que carregam. De tanto aparecer a preocupação, a ansiedade acabou por se sentar em permanência na sala - e insiste em não sair. Enquanto a negatividade se junta numa amálgama de dores e pesos, a outra família é mais ligeira e gosta do riso. Gosta de se passear no parque, apreciar os pores-do-sol e correr pela manhã junto ao rio, sentindo no rosto a frescura do dia a nascer e o cheiro a maresia. Sente-s

Sentir-se perdido

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No outro dia falava com um amigo meu artista que me dizia que se sentia perdido. Por vezes, acontece-me o mesmo. São tantas as coisas em que me meto, os projectos que construo na minha cabeça, que às tantas estou tão dividido. A vida interior busca a unidade. Tenta encontrar essas cordas que nos trazem a harmonia, com as quais podemos tocar uma melodia. Há cerca de 2 dias assistia a uma conferência BBVA em que o orador dizia que devemos começar sempre o nosso dia com aquilo que queremos, com o que são os nossos objectivos primeiros - depois disso teremos sempre tempo para aquilo que ele chamava o "infinito": as tarefas que se sucedem umas às outras, que prendem o nosso tempo; realmente há um horror ao vazio e é muito fácil que nos deixemos levar por essa torrente caudalosa das "coisas que temos que fazer". Se não criamos espaço na nossa vida para cultivar as flores que queremos, andaremos constantemente a ter que ir apanhar ervas daninhas; a ideia é, ao contrário, a

Este é um país para velhos... mas não nas Caldas!

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Ter visão na política é uma coisa essencial e um politico deve primeiro de tudo olhar para a realidade que o circunda para a interpelar. Para onde deveremos ir? O que faz falta a esta comunidade? Há cerca de 3/4 anos, conheci na Alemanha, mais concretamente em Estugarda, o antigo burgomestre desta importante cidade industrial do sul deste rico país, Wolfgang Schuster.  Falámos um bom bocado, tentámos perceber as diferenças entre a Alemanha e Portugal. Embora possa parecer estranho chegámos à conclusão que cá vigora uma cultura mais "top-down", enquanto que a inovação deve acontecer de forma horizontal. Aquela ideia que está enraizada de que não se pode, nem deve, fazer demais, ser notado, mas que o ideal é não "levantar" muitas ondas, deu políticos cá em Portugal como Fernando Seara em Sintra, que optou por deixar as coisas paradas. Ora, precisaríamos de pessoas dinâmicas, que tivessem a capacidade de mobilizar as pessoas, de encontrar objectivos. Na Alemanha, em Es

Paradise de Fauré

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Diz-se que Steve Jobs depois de ter voltado para a Apple decidiu abandonar uma série de projectos, a fim de concentrar a actividade da empresa naquilo que era mais importante.  Na nossa vida vamos constantemente criando projectos e mais projectos, dividindo-nos sempre em mil e uma coisas - e acabando por perder o foco. Há um livro de que gosto muito, que leio em francês, dum autor religioso, o Pe. Michel Quoist - "Réussir". Deu-me a minha avó, terá pertencido a um tio meu, o tio Duarte. Uma das coisas que este livro defende é que é muito importante que nos saibamos concentrar. Primeiro parar, para nos concentrarmos, a fim de que possamos decidir para onde vai a nossa vida. Fala no poder da lupa, que concentra os feixes de luz num ponto ou, em contraste, das forças desgovernadas dum cavalo que, se não tiverem reunidas, representam um enorme desperdício de energia. A questão do desgoverno, é uma questão mental essencialmente, tem a ver com a forma como vivemos, onde aplicamos o

Portugal a ficar para trás?

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Num muito claro e bem escrito ensaio publicado na edição saída este mês de Março na Revista Brotéria, o Prof. João César das Neves discorre sobre o nosso país e por que razão vamos ficando para trás em relação a outros países que entraram depois de nós na União Europeia. Sem simplismos e tendo noção de que não se explicam causas complexas com apenas uma ideia, João César das Neves desenvolve porém a sua opinião considerando que a razão que explica esse ficar para trás é essencialmente uma questão de falta de ambição. Assisti a uma conversa na semana passada, justamente na própria Brotéria, em que se apresentou este artigo e, de facto, acho que é um artigo certeiro em muitos aspectos. Toca também na extrema descapitalização do país, que não permite senão conceder baixos salários e que também aos empresários deixa pouco espaço para investirem, o que acaba por fazer-nos pensar que não nos temos sabido bem governar porque fomos vendendo os anéis todos e, agora, só nos restam os dedos (mas

O que é ser contemporâneo?

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A resposta a esta questão do que é ser contemporâneo, não pode ser dada em duas linhas. Evidentemente que ser contemporâneo não é ter que se vestir de acordo com a última moda, ou ter ser extravagante ao extremo, levando ao exagero o que poderia ser considerado como indicativo de uma atitude progressista: dois brincos na orelha, tatuagem na ponta do nariz... Se na verdade, há em todas as sociedades aqueles que desafiam as convenções e pretendem abri-la a novas experiências, a questão reside em saber se aquilo que foi novidade em certo momento não acabou por ser apenas um epifenómeno, que, com o tempo, se tornou também algo ultrapassado por uma nova tendência, i.e. que estávamos apenas a falar em moda, muito mais que duma atitude de fundo que realmente fizesse mudar algo. Uma das coisas que mais faz mudar a sociedade são os saltos tecnológicos. Com a revolução industrial deixa-se por exemplo de utilizar animas para a locomoção. Nesse sentido, quem não adivinhou que isso iria mudar para