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Rob Riemen sobre o "cuidar da alma" e a Princesa Europa

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Regressei há pouco da FNAC em que num ápice devorei um apaixonante ensaio de Rob Riemen sobre o que é a Europa. Um livro apropriado para esta época fria de apetecer estar à lareira...  Já tinha lido há uns anos um outro livro do mesmo autor, a "Nobreza de Espírito", um testemunho notável e comovente. Uma vez mais, este holandês, num texto que conta de forma viva o encontro que tem com várias pessoas e que desfila entre  relatos da paisagem e retratos interiores do que vai sentindo - desta vez nas altas montanhas dos Alpes, por onde Nietzsche gostava de caminhar, cenário dum simpósio num velho hotel sobre a ideia de Ocidente. O livro começa com relato duma conferência num outro hotel onde Riemen assiste a uma palestra dum padre professor (cheio de títulos académicos), para quem a ideia da Europa seria a de restaurar a Igreja aos tempos da Idade Média... e que horrorizado o fazem reflectir que uma estética sem humanidade e compaixão - como é possível defender que a Idade Média

As metáforas

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    A linguagem traz consigo um caudal grande de sentidos e evocações. Se soubermos pôr a língua a dançar, com o seu próprio ritmo, tornamos a comunicação em algo vivo, vestimo-la de colorido; no entanto, a maioria das pessoas apenas fala a preto-e-branco. Grandes comunicadores são mestres da metáfora e conseguem levar quem os escuta a segui-los com o poder das imagens que convocam. É uma arma poderosa, que tal como a dança dos véus pode inebriar quem se deixe por elas levar. Para o bem ou para o mal, pois quem domine essa técnica, é capaz de defender a sua dama das garras do dragão, tal como quem domina a espada, consegue ferir o inocente. É apenas a liberdade que radica no interior de quem a usa que permite que a distingamos da dança da serpente, do discurso dum qualquer ditador sul-americano, que usa esse seu poder quase mágico para conduzir o rebanho ao precipício. Quantas vezes não pensei no passado que seria bom que alguém no nosso parlamento conseguisse encostar Sócrates às

A nossa direita explicada em linguagem de apicultor

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Vou-vos falar de 2 colmeias que tenho no jardim frente a minha casa.  Uma delas está bem ao centro do jardim (embora algumas discussões já tenha havido sobre onde exactamente deveria estar), é uma colmeia que produziu  um mel saboroso, de rosmaninho.  Na sua origem era constituída por activas abelhas, apostadas em trabalhar de forma honesta e empenhada. Mas nunca foi uma colmeia muito numerosa - talvez porque nos tempos em que se tentou no apiário criar uma regra de que todas as abelhas fossem obrigadas a depositar o mel para ser distribuído por todas as abelhas, para que todas pudessem ter a mesma quantidade, esta colmeia disse que preferia continuar a fazer como sempre fizera: quem quer produzir mais merece ganhar mais; quem não quer produzir tanto, que não importune as demais (e não as obrigue a dar-lhes o mel que outras produziram com o suor do seu trabalho). Ora isto não caiu bem, porque quase toda a gente era na altura a favor dessa regra...  Por outro lado, uns anos atrás, a rai

Um jardim para redimir o homem digital

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Do filósofo Byung-Chul Al, artigo publicado no El País, 14.03.2019 Desde que trabalho no jardim, vejo o tempo de uma forma diferente. Acontece muito mais devagar. Ele dilata. Parece-me que há quase uma eternidade até que a próxima primavera chegue. A queda de folhas de Outono se esconde-se a uma distância inconcebível. Até o Verão parece infinitamente distante. O Inverno já é eterno. O trabalho no jardim de Inverno prolonga-o. O Inverno nunca foi tão longo como no meu primeiro ano como jardineiro. Sofri muito com o frio e as geadas persistentes, mas não por minha causa, mas sobretudo por causa das flores de Inverno, que continuavam a desabrochar mesmo na neve e nas geadas prolongadas. A minha maior preocupação eram as flores, por isso ajudei-as. O jardim afasta-me do meu ego. Não tenho filhos, mas com o jardim estou aos poucos a aprender o que significa dar assistência, cuidar dos outros. O jardim tornou-se um lugar de amor. O tempo do jardim é um tempo diferente. O jardim tem o se

Abrir-nos ao mistério

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Das coisas mais importantes é o entusiasmo pelas coisas, por aquilo que fazemos, por aquilo que vemos ou descobrimos. Uma sociedade muito marcada pela eficiência, ou pelo ganho, acaba por ser uma sociedade profundamente desencantada, pois não chega ao mistério das coisas, prefere possui-las, tê-las. Porque não sabe viver as coisas por dentro, apenas as avalia por fora, por aquilo que elas parecem e por aquilo que custam. E há tanto que acaba por escapar. Cada coisa, cada ser encerra em si um mistério, algo que não se detecta apenas num olhar. Também as pessoas. Quando não conseguimos ir ao encontro e descobrir no outro a sua verdade, entabulando um diálogo com a diferença do outro, limitamos o campo da relação a um mero facciendi, muito redutor. Escrevi há algum tempo que a vida é um continuum, que é uma aventura. Quando não somos capazes de dar uma perspectiva mais ampla da vida e não conseguimos contar uma história, onde se encontra o desenhar dum percurso, passamos a ser apenas uns

It's all about motivation

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Quando éramos pequenos a coisa mais fantástica que podíamos ter era o meu pai organizar-nos um rally-paper: um conjunto de provas fantásticas, todas elas de difícil execução e que exigiam de nós a máxima da nossa energia e do nosso empenho. Cada grupo levava as folhas com as provas e as perguntas e um saco de plástico para a recolha dos objectos necessários, partindo numa correria desenfreada pela quinta e imediações mais directas. Era necessário apanhar uma batata, uma pera ou uma minhoca; responder a perguntas tais como "como se chama o palácio com duas grandes chaminés?", ou "de que é construído o convento onde não se consegue dormir com as pernas esticadas?". E havia desafios muito grandes: arranjar 3 cabelos brancos por exemplo (iríamos ter com as únicas pessoas velhotas por perto, a Maria Amélia e a sua mãe Maria Emília? Como iríamos fazer?! Ou tentar ir à casa dos caseiros e pedir para espreitar por entre a "cabeleira", ou melhor, tentar encontrar a

Onde são gastos os nossos impostos?

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Ontem falava com o meu amigo João Monteiro Rodrigues, espreitando o Tejo duma esplanada altaneira. Como criar uma visão para o futuro em que as pessoas se sintam mais confiantes e esperançosas? Dizia ele que a nossa população está muito envelhecida. De facto, se virmos este gráfico em baixo que a Autoridade Tributária publicou (e muito bem) sobre "para onde vai o dinheiro dos nossos impostos" compreendemos que só podemos ter uma população idosa: 24% vai para prestações sociais, 21% vai para o sector da saúde - tipicamente sectores em que uma população idosa não ajuda muito. Por outro lado, para as operações relacionadas com a dívida pública, temos 12%, o que significa que o que produzimos é insuficiente. Tudo isto representa 57%, uma despesa que não tem mesmo qualquer retorno. O sector da educação, talvez o único sector que é verdadeiramente reprodutivo (a aposta na "massa cinzenta", o único recurso que inventa novos recursos), representa apenas 12% do bolo. Não dev

Mapas

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A nossa apreensão da realidade é sempre uma aproximação e, nos últimos tempos, dei por mim em pensar que teria que escrever algo sobre isto.  Quando somos crianças, temos uma ideia do mundo um tanto ou quanto distorcida, não percebemos as relações de força que existem - somos facilmente vítimas de alguns enganos. A construção dum mapa da realidade é um processo que se faz juntando as pecinhas do puzzle, uma a uma, pacientemente ao longo de muitos anos: fenómenos que nos surpreenderam, que não entendemos na altura, têm sempre uma razão de ser e, assim, o nosso retrato da realidade vai-se compondo, tornando-se também mais complexo e mais colorido. Há certamente momentos de espanto, de incompreensão - por vezes aquilo que considerámos uma virtude, aparentemente esconde fragilidades que só mais tarde vêm à superfície... e vice-versa, aquilo que pensámos ser um defeito que acusamos nos outros, é uma qualidade que não vimos. A mim aconteceu que na infância ou juventude formulei certas imagen

Rosas para Sampaio

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Numa entrevista que passou ontem na televisão, Jorge Sampaio disse que um dos episódios que mais o marcou enquanto político foi o de uma senhora cabo-verdiana que foi ao seu encontro, nos Paços do Concelho em Lisboa, quando era presidente da CM. Eram cerca de 21h00 da noite e a senhora abordou-o, frente à CM pedindo-lhe ajuda pois ficara sem casa para ela e para o seu filho, um jovem de 15 anos. Parece que Sampaio terá arranjado uma casa para a senhora e seu filho. Acontece que 2 anos depois a senhora volta novamente ao seu encontro, trazendo-lhe um ramo de flores para lhe agradecer, escolhendo o mesmo local para ir ter com Sampaio e apanhando-o de surpresa. É de facto um gesto bonito. Na verdade, encontramos diariamente pessoas que nos pedem ajuda e não será necessário ser presidente da CM de Lisboa para ter meios para ajudar. Mas realmente, a política pode ter destas coisas, estar próximo das pessoas e poder ajudá-las.  O carreirismo, que aposta sempre tudo no que há-de vir é um erro

"Trouxas" e "espertos" - o que são bons impostos?!

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Devemos pagar impostos ou podemos evitar pagá-los? Há muitos que se queixam que pagamos impostos a mais. Ultimamente sinto na minha pele essa situação, de pagar uma carga enormíssima de IRS. A questão não é fácil e as fronteiras são ténues, sendo difícil descobrir onde está na realidade a ética e aquilo que é aceitável. Pagar impostos quando tal representa quase um confisco e querer fazê-lo pode parecer um absurdo, ou se é estúpido ou se é "trouxa" e posso até justificar que não os pago - e que tal é até mais eficiente para a economia, porque depois "devolvo" o dinheiro à economia. No entanto, devemos pensar também se não está instalada uma cultura de maximização do lucro e dos ganhos, em que o sucesso das pessoas está demasiado ligado ao sucesso económico. Em que o que é importante é sermos "espertos". Será mau mentir ao fisco?  Será eticamente condenável encontrar mecanismos como o de ficcionar uma " morada própria e permanente " para não pagar

Pontes

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Hoje o dia amanheceu com um céu escuro, mas da vista da minha salinha, olhando a ponte, vê-se um ténue arco-iris. Estender o braço para o outro é criar uma ponte de diálogo, onde pode brilhar um arco-iris, o milagre da relação. Um mais um, é sempre mais do que dois. Gosto desta ideia da ponte, dos braços que se estende entre duas margens, ultrapassando os abismos que os separam.

A utilidade do inútil

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Há não muito tempo ofereci um livro a um amigo meu francês até recentemente residente em Lisboa, o Guillaume, "a utilidade do inútil, manifesto", de Nuccio Ordine. Em várias conversas que fui tendo com o Guillaume, ele indignava-se contra uma cultura muito liberal, preocupada sobretudo com o ganho, algo que ele dizia, de uma forma bastante assertiva, de que se tratava de uma mentalidade que esquecia a "Encarnação"... Bom, não irei entrar em questões teológicas - deixo isso para quem sabe desses assuntos metafísicos -, embora me pareça que a maneira como vivemos é muito influenciada pela cultura subjacente a determinado quadro mental que se foi sedimentando, onde também se identificam raízes religiosas. Na composição da Europa identificamos países protestantes e países católicos, sendo evidentes duas maneiras de viver as coisas, que marcam a vida nesses dois universos e que, de forma algo simplista, poderíamos situar uma no norte e, outra, no sul da Europa, o que est

Zeitegeist

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No outro dia bebia um copo com uns amigos espanhóis e falávamos um pouco de história dos nossos dois países quando um deles comentava que as nossas histórias eram paralelas, que com muitos poucos anos de diferença os bens da Igreja tinham sido vendidos ao tempo do Liberalismo. Isso fez-me pensar noutras questões, por exemplo se, na história, existem ventos aos quais se não nos podemos opor.  Os alemães têm um termo próprio para isto o "Zeitgeist", traduzido à letra o "Espírito do Tempo". Na nossa história podemos encontrar inúmeras questões em que era muito nítido que estaríamos a lutar contra os ventos da história: o colonialismo é naturalmente um deles, mesmo que possamos ver que nele jogavam muitas forças, como a Guerra Fria. Mas onde se joga a questão da convicção, em que mesmo que todo o mundo diz que devemos mudar, nos devemos manter iguais?  Há que ser inteligente e perceber. Como se diz na gíria, só os burros não mudam! O Leopardo de Lampedusa é bem sintomát

Crónica do Tempo que passa

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Na semana passada assisti pelo youtube, muitos anos depois de o ter feito, a um discurso de Barack Obama no Parlamento inglês. Em cerca de 1 hora, frente a uma extensa plateia de ambas as câmaras suspensa no seu poder de exposição, Obama foi o "primo americano" arauto do mundo livre, defendendo porque continua a fazer sentido a América e Inglaterra continuarem de mãos dadas. Fiquei realimente impressionado com a sua capacidade de pensar o mundo e de o fazer na base de valores. No final, creio que foi à presidente da Câmara dos Pares a quem coube fechar a sessão e agradecer... que ele incorporaria bem aquela máxima de "liderar com poesia e governar com prosa". Essa mesma noite, procurei um filme para ver à noite e encontrei, entre muitas opções, "Michelle e Obama, o Primeiro Encontro", um filme de 2016. Filme muito bem feito, com uma narrativa simples relativa ao primeiro encontro que terão tido. Michelle, um tanto desconfiada das aproximações de Obama, vai

Ver turvo

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Não podemos deixar que o trabalho excessivo seque a fonte viva do nosso interior. Há uma tendência muito actual de medir o nosso valor por aquilo que fazemos. Ora, nós somos mais do que isso. Por vezes, na voragem dos dias, em que tantos e tantos afazeres nos vão consumindo toda a energia, damo-nos conta que apenas nos arrastamos. Arrastamos os pés. Byung Chul-Han um filósofo sul-coreano radicado na Alemanha tem escrito bastante sobre esta sociedade do fazer, a que chamou a "sociedade do cansaço". Há um grande campo para repensar a forma como vivemos.  Muitos movimentos têm sido criados no mundo ocidental e a juventude está atenta à necessidade de encontrar uma forma de vida mais saudável. Alguns vão buscar inspiração a práticas espirituais orientais. Penso que será necessário às religiões ocidentais pensarem como deverão também viver nestes tempos em que o trabalho parece secar a realidade. Como fazer para que as religiões sejam uma forma que revitalize e dê de novo a energi

Um importante debate - educação vs. fiscalidade

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Ontem, dia 28, o programa "Circulatura do Quadrado" foi no Palácio de Belém, com o Presidente da República como anfitrião de José Pacheco Pereira, António Lobo Xavier e Ana Catarina Mendes. Numa das suas intervenções, já o programa ia a mais de meio, José Pacheco Pereira coloca uma questão pertinente que me fez pensar: refere as ideias da Iniciativa Liberal, nomeadamente que o que há que fazer sobretudo é diminuir o peso do Estado, engordado pelos governos do PS e do PSD, aquilo que seria um certo modo "socialista". Segundo ele, a questão não estaria aí: estaria antes nas qualificações da população portuguesa. Não crescemos menos que a República Checa porque temos uma fiscalidade má; crescemos menos porque as qualificações nesse, e noutros estados da Europa de Leste que nos passaram à frente, são melhores que as nossas. Pacheco Pereira referiu também o protestantismo. Concordo que a massa cinzenta é talvez o maior "asset" das economias pujantes. Pense-se n

Réussir, de Michel Quoist

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" Si tu veux te mettre tout entier dans l'action, si tu veux te donner totalement, si tu veux être pleinement disponible, si tu veux aimer de tout ton cœur, si tu veux prier de toutes tes forces, possède parfaitement ton corps, ton cœur, ton esprit et leur débordante vitalité.  Possède-toi, alors tu pourras dire : J'agis, je me donne, je suis disponible, j'aime, je prie."    Pe. Michel Quoist

Sem palavras, o nosso país e o que sentimos muitas vezes

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A moeda de prata e a moeda de ouro (short stories)

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Quando era pequeno e abria e remexia em gavetas na esperança de nelas encontrar a própria razão da sua curiosidade, um conjunto de 3 moedas de prata, reluziu como tesouro inesperado. E logo o brilho da prata encandeou sua razão e fê-lo preparar um plano espantoso para que uma dessas moedas lhe fosse a si atribuída com propriedade, de forma indiscutível: pegou numa delas, saiu de casa de seu avô e pouco depois surpreendeu os adultos como o achado extraordinário de uma visita à rua...  Os adultos pouco nisso repararam. Ninguém o contrariou, mas ainda hoje se pergunta a si próprio se no fundo alguém terá percebido o embuste, aquele embuste por si criado quando tinha menos de 10 anos de idade. Passaram-se entretanto mais de 30 anos e, surpresa, um cliente seu, em sinal de gratidão pela assistência que lhe prestara enquanto advogado, sentados à mesa, estende-lhe numa pequena bolsa um objecto e diz-lhe: isto é para si, muito obrigado pelo seu trabalho. Era uma moeda de ouro, um rand da Áfric

Fred Pery

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Q uem disse que na vida, não escolhemos?! Conheci gente que em criança era capaz de grandes rasgos, de frases certeiras e desconcertantes . Um dia essa gente cresceu e tornou-se gente convencional, sem graça e sem sal. Não foi assim com Fred Pery (com um "y" e não com dois "r", denote-se).  Não sei aliás o que fez com que ele guardasse para si essa liberdade, mas penso não estar muito enganado se disser que era quase por uma questão estética - que ele escolheu ser assim, se bem que, por boa educação, por vezes reservasse para si ou para os seus amigos alguns comentários... Na verdade, sempre teve muitos amigos e adorava brincar com eles, mesmo os de fora topassem por vezes um riso torcista, que os deixava sobretudo irritados, por não pertencerem a esse círculo bem disposto e ... relativamente fechado. Era um tipo alto, direito, se não fosse advogado, seria tribuno na Assembleia da República, daqueles cuja oratória e verve afinada tornava mais divertidas aquelas amiú