Uma das situações que pode tornar os dias da minha vida profissional de advogado mais interessantes, é que tendo por necessidade passar os olhos por tantas palavras e tantas frases, por vezes deparo-me com algo que abre portas à capacidade de me evadir do papel (ou melhor dito, do computador). Escreveu Flaubert em Madame Bovary "Tout notaire a rêvé des sultanes", talvez seja isso que explique que nos apeteça dar uma boa gargalhada, quando descobrimos que na mais prosaica situação encontramos algo insólito, que nos faz pensar que a realidade é muitíssimo mais rica do que poderíamos pensar. Na nossa profissão de juristas, ainda existem assuntos mais enfadonhos do que a análise de um plano local de urbanismo, mas certamente que poderíamos encontrar textos mais divertidos na nossa vida, se ao menos tivéssemos essa liberdade... Um plano director municipal é um regulamento administrativo que regula a ocupação de um determinado território municipal e diríamos que um qualquer exe...
No próximo fim-de-semana, seremos chamados a votar naquele que será o próximo Presidente da República. Em muitas conversas que vou tendo com quem me cruzo, noto uma certa hesitação. Por isso, este exercício que fiz para mim, que se explica pelas dificuldades que eu próprio também tive em escolher, e que aqui partilho. Há cerca de um ano estava tentado a votar em Gouveia e Melo, pois gostava do facto de ser uma pessoa que transmitia uma ideia de seriedade e de defesa intransigente do interesse nacional, não me importando com o facto de ser militar. Aliás, penso que não havia qualquer problema em haver um militar na Presidência da República: depois dos exageros revolucionários da década de 70, a instituição militar veio a perder cada vez mais relevância, a ponto de ser praticamente omissa da nossa vida pública. E isso é pena, porque acho que precisamos dela — ela é por vezes o último reduto de uma consciência nacional, e Gouveia e Melo poderia ir beber a essa tradição. Fomos ouv...
Que fazes tu no céu, ó lua? José Tolentino Mendonça Um dos filósofos mais originais e discretos do século XX, o russo Pavel Florenskij, escreveu: “A nossa vida escapa-nos como um sonho, e é possível não chegar a tempo de fazer coisa alguma neste breve instante que é a vida. Por isso, é necessário aprender a arte de viver, a mais difícil e a mais importante das artes: a capacidade de conferir a cada hora um conteúdo substancial, conscientes de que aquela hora não tornará jamais .” Pode, de facto, acontecer-nos “não chegar a tempo” até porque, precisamente o tempo, é uma alta febre que nos toma e que, não raro, nos atira borda fora da nossa própria embarcação. Desde que ganhámos consciência de que estamos dentro do tempo, de que somos seres amassados na argila do tempo, deixámos de ter tempo. A nossa vida, quase por completo, está destinada ao fazer e ao produzir , a essa luta certamente áspera, monótona ou dilacerante, mas também apaixonada, envolvente e, à sua maneira, vital...
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