Uma das situações que pode tornar os dias da minha vida profissional de advogado mais interessantes, é que tendo por necessidade passar os olhos por tantas palavras e tantas frases, por vezes deparo-me com algo que abre portas à capacidade de me evadir do papel (ou melhor dito, do computador). Escreveu Flaubert em Madame Bovary "Tout notaire a rêvé des sultanes", talvez seja isso que explique que nos apeteça dar uma boa gargalhada, quando descobrimos que na mais prosaica situação encontramos algo insólito, que nos faz pensar que a realidade é muitíssimo mais rica do que poderíamos pensar. Na nossa profissão de juristas, ainda existem assuntos mais enfadonhos do que a análise de um plano local de urbanismo, mas certamente que poderíamos encontrar textos mais divertidos na nossa vida, se ao menos tivéssemos essa liberdade... Um plano director municipal é um regulamento administrativo que regula a ocupação de um determinado território municipal e diríamos que um qualquer exe...
No próximo fim-de-semana, seremos chamados a votar naquele que será o próximo Presidente da República. Em muitas conversas que vou tendo com quem me cruzo, noto uma certa hesitação. Por isso, este exercício que fiz para mim, que se explica pelas dificuldades que eu próprio também tive em escolher, e que aqui partilho. Há cerca de um ano estava tentado a votar em Gouveia e Melo, pois gostava do facto de ser uma pessoa que transmitia uma ideia de seriedade e de defesa intransigente do interesse nacional, não me importando com o facto de ser militar. Aliás, penso que não havia qualquer problema em haver um militar na Presidência da República: depois dos exageros revolucionários da década de 70, a instituição militar veio a perder cada vez mais relevância, a ponto de ser praticamente omissa da nossa vida pública. E isso é pena, porque acho que precisamos dela — ela é por vezes o último reduto de uma consciência nacional, e Gouveia e Melo poderia ir beber a essa tradição. Fomos ouv...
Os meus Verões de criança e juventude passei-os no mar da Praia Grande, onde a aproximação à água não é fácil, por razões eminentemente térmicas. O corpo em contacto com a água: os músculos retesados, esqueleto em sentido. Duas estratégias diferentes: permanecer esperando até que, já banhado pela espuma e salpicado pelas ondas, em gestos tímidos se avança passo a passo; ou acometer-se à frieza das águas num mergulho, decisão ainda assim por uma ou duas vezes adiada. Acho que nunca se entra na água da Praia Grande sem certa dose de ímpeto afirmativo; sou pois absolutamente defensor da segunda estratégia. Poderia haver aqui um quê de exibicionismo, mas manda sobretudo a fidelidade a uma pertença colectiva. A mesma pertença colectiva que me levava às carreirinhas nas enormes ondas com os meus amigos gémeos Taborda quando éramos ainda de "borracha", ou ao exercício ousado de aventureiro quando o tio atleta Frederico Mayer nos dizia: “ ´’bora rapaz, vamos passar a rebentação e nad...
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