O que poderá uma santa do longínquo séc. XIV português dizer-nos 700 anos de depois? Exercício ousado para quem não é teólogo nem historiador… mas creio não dizer nenhuma asneira se disser que a vida na Idade Média era em geral bastante mais difícil do que é hoje e que vivemos num mundo muito diferente. Deslocamo-nos facilmente, comunicamos em tempo real para o outro lado do planeta, um número alargado de confortos e distrações está ao alcance da generalidade da população das nossas cidades. Confesso que sempre me causou alguma estranheza o tom com que é descrita a vida na “Salve Rainha”, oração atribuída ao monge Hermano Contracto, que a teria escrito por volta de 1050, no mosteiro de Reichenau, no Sacro Império Romano-Germânico: “(…) A Vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Eia, pois, advogada nossa, esses Vossos olhos misericordiosos a nós volvei. E, depois deste desterro, nos mostrai Jesus, bendito fruto do Vosso ventre (…)”. Todavia, se tivéssemos em conta qu...
Uma das situações que pode tornar os dias da minha vida profissional de advogado mais interessantes, é que tendo por necessidade passar os olhos por tantas palavras e tantas frases, por vezes deparo-me com algo que abre portas à capacidade de me evadir do papel (ou melhor dito, do computador). Escreveu Flaubert em Madame Bovary "Tout notaire a rêvé des sultanes", talvez seja isso que explique que nos apeteça dar uma boa gargalhada, quando descobrimos que na mais prosaica situação encontramos algo insólito, que nos faz pensar que a realidade é muitíssimo mais rica do que poderíamos pensar. Na nossa profissão de juristas, ainda existem assuntos mais enfadonhos do que a análise de um plano local de urbanismo, mas certamente que poderíamos encontrar textos mais divertidos na nossa vida, se ao menos tivéssemos essa liberdade... Um plano director municipal é um regulamento administrativo que regula a ocupação de um determinado território municipal e diríamos que um qualquer exe...
No próximo fim-de-semana, seremos chamados a votar naquele que será o próximo Presidente da República. Em muitas conversas que vou tendo com quem me cruzo, noto uma certa hesitação. Por isso, este exercício que fiz para mim, que se explica pelas dificuldades que eu próprio também tive em escolher, e que aqui partilho. Há cerca de um ano estava tentado a votar em Gouveia e Melo, pois gostava do facto de ser uma pessoa que transmitia uma ideia de seriedade e de defesa intransigente do interesse nacional, não me importando com o facto de ser militar. Aliás, penso que não havia qualquer problema em haver um militar na Presidência da República: depois dos exageros revolucionários da década de 70, a instituição militar veio a perder cada vez mais relevância, a ponto de ser praticamente omissa da nossa vida pública. E isso é pena, porque acho que precisamos dela — ela é por vezes o último reduto de uma consciência nacional, e Gouveia e Melo poderia ir beber a essa tradição. Fomos ouv...
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