Presidenciais
No próximo fim-de-semana, seremos chamados a votar naquele que será o próximo Presidente da República. Em muitas conversas que vou tendo com quem me cruzo, noto uma certa hesitação. Por isso, este exercício que fiz para mim, que se explica pelas dificuldades que eu próprio também tive em escolher, e que aqui partilho.
Há cerca de um ano estava tentado a votar em Gouveia e Melo, pois gostava do facto de ser uma pessoa que transmitia uma ideia de seriedade e de defesa intransigente do interesse nacional, não me importando com o facto de ser militar. Aliás, penso que não havia qualquer problema em haver um militar na Presidência da República: depois dos exageros revolucionários da década de 70, a instituição militar veio a perder cada vez mais relevância, a ponto de ser praticamente omissa da nossa vida pública. E isso é pena, porque acho que precisamos dela — ela é por vezes o último reduto de uma consciência nacional, e Gouveia e Melo poderia ir beber a essa tradição.
Fomos ouvindo variadas teses. Desde pessoas a dizer que ponderavam a escolha em Ventura, pois isso poderia matar o partido, uma vez que o mesmo é unipessoal (tese tortuosa e perigosa, já que é dar a alguém uma posição de destaque, de ainda mais poder, ignorando que tal constitui uma forma de “muscular” a organização); ou ver no voto em Marques Mendes o voto útil, evitando assim o mesmo Ventura. No entanto, as sondagens mais recentes estão aí para demonstrar que o senhor não “galvaniza” e está em 5.º nas intenções de voto — e que é voto desperdiçado.
Entretanto, a proposta de Gouveia e Melo acabou por rapidamente me desiludir. Se bem que considere que Gouveia e Melo, vindo de fora dos aparelhos partidários, tenha contribuído para uma composição interessante do painel de candidatos, e ache que o que disse de Marques Mendes foi duro mas relevante, penso que o mesmo demonstrou não ter uma base doutrinária sólida. Adoptou uma mera táctica (não fosse ele militar) de se colocar ao centro, para assim captar votos. Ficámos sem saber em que é que ele acredita e, apesar de ser indiscutível que se trata de um homem muito sabedor em termos do sector da Defesa — e que tal seja neste momento importante, dado o contexto internacional —, isso é manifestamente insuficiente para quem se propõe à figura de Chefe de Estado.
Convém, antes de mais, termos consciência da importância da escolha de um Presidente da República. É a mais destacada figura do Estado, pedindo-se-lhe: (1) que leia a realidade nacional e contribua para o seu progresso, (2) que vele pelo regular funcionamento das instituições e (3) que represente Portugal ao mais alto nível, tanto internamente como internacionalmente.
Porque não sou estatista e acho que Portugal precisa de reformas — daí que descarte a figura de António José Seguro, que é um homem pouco carismático e muito “politicamente correcto” —, a minha escolha situa-se no centro-direita, pelo que a minha primeira escolha será nesse lado da equação. No entanto, numa situação de Ventura vs. Seguro na 2.ª volta, o meu voto não irá para Ventura.
Em primeiro lugar, vamos a Marques Mendes. Não nego a sua capacidade de ler a realidade nacional e que pudesse ser um razoável moderador em termos institucionais, mas pessoalmente tenho pouca simpatia pelo senhor, pois acho que, de facto, andou sempre na órbita do poder (mesmo no sector privado) e não creio que acrescente nenhum “rasgo” ao cargo. Aliás, falha na terceira condição, que é a da representação do Estado. A sua figura não gera respeito — não tem culpa disso.
Primeiro com alguma hesitação, depois cada vez com mais convicção, Cotrim de Figueiredo apareceu então. Parece-me claro que tem um quê de vaidoso e isso criava-me alguma resistência, mas a verdade é que a auto-estima não é pecado, apenas quando pode machucar ou pisar outros — e isso não me parece ser o caso. Nunca votei na IL, mas já por várias vezes votei em pessoas que não são do “meu partido” (não sou filiado), porque acredito nelas. E, no caso da Presidência da República, isso faz muito sentido. Cotrim é um homem inteligente e articulado, a que associa o bom-humor (qualidade sempre interessante). Tem um percurso amplo fora da política, de grande valia profissional, diga-se. Formou-se na London School of Economics, foi gestor de topo em grupos e empresas importantes, destacando-se como alguém que fazia acontecer (no mundo exigente financeiro, como o Citigroup, ou depois na economia dita “real”, na Nutrinvest ou na Compal, p.e.). Esteve na TVI, mostrando-se capaz de abraçar novos projectos, em áreas também elas novas para ele. Convidado a ser o Presidente do Instituto de Turismo de Portugal, foi um dos responsáveis pela estratégia bem-sucedida de atracção do nosso país, passando assim também pelo sector público. E depois foi Deputado (o único da IL) e, mais tarde, e actualmente, é Deputado Europeu.
Assume-se como não crente e fá-lo sem qualquer falta de clareza ou tibieza. Não concordo com a sua posição sobre o aborto ser um “direito”, o que de certa maneira me arrepia, mas também sei que considera que, sobre este ponto, a lei em Portugal será adequada. O direito à vida é algo essencial. No entanto, para mim, a escolha do Presidente da República deve recair sobre um conjunto de questões, e a convicção pessoal da pessoa que ocupa Belém sobre a questão não é determinante. É a Assembleia da República que vota e, mesmo que o Presidente da República vete politicamente, o assunto poderá ir de novo para a Assembleia da República, que poderá confirmar e, nessas circunstâncias, o Presidente é obrigado a promulgar. Evidentemente que poderá também enviar para o Tribunal Constitucional, mas Deputados descontentes podem fazê-lo igualmente (neste caso, ao contrário do Presidente, que goza do poder de pedir preventivamente, trata-se de uma apreciação sucessiva).
No passado, um Presidente da República católico, Cavaco Silva, foi obrigado a promulgar uma nova lei do aborto, na sequência do referendo. Constitucionalmente, ele era de facto obrigado a isso — e manifestou que o fazia de forma contrariada no seu decreto de promulgação. Ora isto prova que a convicção pessoal do Presidente da República não obsta a que passe uma lei dessa natureza. Portugal não tem um sistema presidencialista como os EUA, e uma objecção de consciência, como aquela que o Rei Balduíno da Bélgica usou, abdicando por 36 horas, não teve efeitos práticos no seu país, nem seria possível em Portugal.
Nesse sentido, votar em alguém como Ventura que se diz cristão porque é contra o aborto, é algo inconsequente, porque o mesmo não teria poder para evitar que uma lei ou referendo, num sentido contrário ao dele, pudesse entrar em vigor. Na actual Constituição isso não é possível. Aliás, penso que, se a escolha se funda entre “quem é cristão ou não é”, revela a mesma reacção que teve o Papa Francisco quando perguntado sobre em quem se deveria votar nos EUA: Donald Trump ou Kamala Harris? Em Ventura, essa sua proclamação de cristão vê-se completamente negada com, p.e., os cartazes colocados, que são claramente xenófobos e persecutórios, atribuindo características a determinados grupos sociais, quando a responsabilização por qualquer acto só pode ser singular. Isso não é cristão.
Ora, não me querendo alongar demasiado, reforcei a minha inclinação para Cotrim de Figueiredo depois de ler o livro que escreveu recentemente, apresentando-se. Passo a explicar.
Cotrim é um homem digno e correcto, que fala com transparência, e com o tal sentido de humor que aprecio. Não se faz passar por aquilo que não é, lustrando o seu currículo, dourando algo para parecer melhor, ou modelando o seu discurso de forma táctica. Também não se apresenta como o homem providencial; é uma pessoa próxima, que sabe estar com as pessoas mais simples e com pessoas de craveira (no seu livro fala de Jorge de Mello, ou do Director da London School of Economics, só para dar dois exemplos e de conversas que teve com eles).
Pelo seu passado, que vai narrando, vemos que foi um jovem que se divertiu, que gostava de música e de sair, que teve muitas experiências pessoais e profissionais, que ia tentando arranjar maneiras de se aguentar financeiramente, mesmo que fosse necessário “ir lavar pratos”. Ou seja, fez um pouco de tudo, o que lhe permitiu desenvolver uma personalidade rica e conhecer e lidar com pessoas de todos os meios. É, depois, uma pessoa com um currículo digno de apreciação, tendo dado fartas provas de ser competente. Teve muitas “missões”, muitas delas fora do seu espaço de conforto (foi para o estrangeiro muito novo e teve de “se aguentar à bronca”, passou entre sectores económicos, ou do privado para o público, e depois para a política) e conseguiu estar à altura, porque se preparou. É ainda relativamente jovem e é uma pessoa enérgica, estudiosa e disciplinada. Diz que se habituou a acordar bastante cedo para fazer desporto.
Creio que Cotrim foi um excelente Deputado, aliás o único deputado do seu partido. Combativo e exigente, mas sem ser mal-educado. Fala uma série de línguas (alemão, da escola alemã onde estudou, francês e inglês), tem bom aspecto e experiência internacional.
Por todas estas razões, acho que, de todos os candidatos, é o que estará em melhores condições para (1) ler a realidade nacional e contribuir para o seu progresso, (2) velar pelo regular funcionamento das instituições e (3) representar Portugal ao mais alto nível, tanto internamente como internacionalmente.
Uma última nota para dizer que acho que não é certo que Cotrim consiga ir à 2.ª volta, embora se esteja a aproximar disso. Uma 2.ª volta com ele poderia ter Ventura, ou Seguro. Em qualquer um dos cenários penso que ele ganhará. Mas o grande Cabo das Tormentas é conseguir a 2.ª volta! Se conseguir isso, creio que estaremos a caminho da “Índia”.

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