Em Braga
Nesta última semana estive em Braga e conheci melhor uma das principais cidades portuguesas, onde a presença da fé é omipresente. Hoje é Domingo e, com a janela aberta, dando para o arco da Porta Nova, oiço o badalar dos sinos nas torres da Sé Catedral.
Para um homem do sul, habituado ao branco de Lisboa e do Alentejo, à calçada portuguesa dos calcários, permanecer em Braga como o fiz, leva-nos a sentir-nos mais essa Europa Atlântica, feita de urbes medievais e que encontramos em Espanha, em França ou na Alemanha. Andamos por ruas pedonais, como nesta via que nos leva a atravessar a parte antiga até chegar a uma enorme praça, centro onde se juntam as pessoas durante o dia, movimentando-se durante os seus afazeres, ou em momentos de lazer para almoçar, beber um café, ou simplesmente ver o que se passa. Quando cheguei na passada 3.ª feira de Carnaval, a praça animava-se com um grupo que se tinha formado perto do coreto, com casais que dançavam o vira, ao som de múltiplas concertinas e de cantigas, onde se alternavam as vozes masculinas, graves, às estridentes minhotas, com as suas vozes de canas rachadas.
Mas desenganem-se os que pensam que Braga apenas tem para oferecer uma fé e os viras populares. No dia seguinte tive uma epifania ao descobrir o Museu Pio XII, que abriga uma colecção extraordinária do maior retratista do séc. XX, de seu nome, Henrique Medina: são 80 quadros que o artista deixou à Diocese de Braga. Uma qualidade de representação formidável, onde cada rosto representado nos convida a um olhar demorado. Desde retratos a óleo de pessoas da alta sociedade, portuguesa ou internacional, aos desenhos a carvão e sanguínea em séries de caracteres mais populares, que nos fazem entrar na individualidade própria de cada um. Uma grande expressividade nos olhares, mostram-nos um talento de representação notável, reunido nesta galeria que se desenvolve em várias salas, com quadros bem iluminados e expostos, galeria presidida pelo retrato de D. Eurico Nogueira, Arcebispo de Braga, não se escondendo em tom moralista nada da riqueza do artista, nomeadamente as belas mulheres por ele pintadas com os seus peitos à vista. Tive oportunidade de falar com o director do museu e de o felicitar pela qualidade desta galeria. E ao longo da semana percebi que em Braga a fé dialoga com a cultura, com a cultura contemporânea, não é uma coisa de ratos de sacristia.
Em 4.ª feira de cinzas, uma bela cerimónia na Sé de Braga, cujo orgão e coro alto em barroco me surpreenderam pela sua beleza e riqueza e hoje parto, depois de mais uma bonita cerimónia numa Igreja perto da Sé, uma vez mais cheia de gente, no primeiro Domingo de Quaresma.
Ao longo da semana passei-me pela cidade, descobri jardins imaculados de tulipas, uma cidade que de noite encanta pela iluminação aos seus monumentos, com restaurantes tradicionais e muitos modernos também, bares simpáticos e animação. A noite tem muita juventude que se reúne perto da Sé e gostei da movida.
Tive boas conversas com pessoas da cidade. Conheci o maior fabricante de guitarras da Península Ibérica, que tem uma loja junto à Sé, onde um grupo de homens se reunia em convívio musical. O senhor era um self made man que anda pelo mundo a vender instrumentos. Estive também durante uma boa hora à conversa com o dono do Hotel onde estou, o Hotel Porta Nova, um empresário de áreas tecnológicas que se dedicou também recentemente à hotelaria. Pessoa simpática e um gestor competente e que me falou do arquitecto Cerejeira que fez o seu hotel e me falou também da Capela da Árvore da Vida, que fui conhecer e que é um trabalho notável e de grande espiritualidade.
No Sábado fui conhecer a Livraria Centésima Página e tive a prova viva que há cultura em Braga, que ela está viva e que tem qualidade. Um local onde apetece estar, com múltiplas salas e espaço de refeições e um jardim-esplanada com uma linda magnólia florida.

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