João Bosco Mota Amaral

No final do dia, depois de trabalho intenso, dei por mim ontem no zapping. Esticado no sofá, parei num programa na RTP Açores que abordava a figura de João Bosco do Amaral, durante muito tempo Presidente do Governo Regional dos Açores.

Tinha dele uma imagem de um homem um tanto ou quanto sisudo. Apanhei o programa quase no início e vi ainda imagens antigas, dum jovem magro, que falava eloquentemente. Os Açores, no período conturbado do 25 de Abril agitaram-se socialmente. Não foi ainda o terramoto que veio mais tarde e que foi devastador, foi antes a indefinição sobre o seu futuro e a relação com o Estado Português, que causava essa instabilidade social. Na procura dos Açores por si, um jovem de pouco mais do que 30 anos avançou para ajudar a pensar o presente e o futuro dessas lindas ilhas, a meio do Atlântico. Articulado, inteligente e com poder de falar às massas, João Bosco foi uma voz que se vez respeitar pelos açorianos. Temia-se que os Açores fossem apanhados na onda esquerdizante do poder no Continente. Houve um movimento de independência pelos Açores, que chegou a usar da violência. 

Após a Constituição de 1976, que consagrou o princípio da Autonomia Regional, Mota Amaral foi eleito Presidente do Governo dos Açores. Nessas funções, conseguiu impedir que os movimentos separatistas triunfassem, exercendo uma liderança muito activa em comunicação estreita com os açorianos, denunciando a instabilidade provocada por uns tantos, naquilo que considerava intolerável. Mas, em diálogo com o Continente foi longa a luta para que os Açores conseguissem a autonomia que pugnava. Acreditava nuns Açores parte integrante de Portugal, não uma sua possessão. E a sua acção, ao longo de vários mandatos (esteve à frente dos destinos dos Açores por cerca de 20 anos), teve inúmeros episódios de conflito com o Continente, nomeadamente com o Presidente Soares, com os Representantes da República por ele nomeados, ou a propósito do Estatuto Autonómico, que o presidente socialista vetou. No entanto, Mota Amaral soube governar com o que tinha e fazer-se respeitar a nível nacional, de que é sinal as palavras elogiosas Mário Pinto, um dos representantes da República, ao acabar o seu mandato, no seu discurso de despedida, que a RTP reproduziu. Ou fazendo da Presidência Aberta que Soares promoveu durante uma semana nos Açores uma oportunidade para mostrar a identidade própria dos Açores.

O que ressalta desta biografia que a RTP passou é um homem que se pautou por um sentido de missão e serviço, acima de qualquer suspeição. Um homem direito, vertical, elegante, expressão do que é no intimo. A lisura da sua apresentação pessoal, os fatos bem passados, as gabardines e as gravatas que mostram o seu aprumo, são o sinal exterior dum homem de impecável postura perante a vida. De sisudo que o tinha, apercebi-me dum homem de bom-humor. Que canta e dança ao lado do povo açoriano, que é apaixonado pela sua terra. Um homem daqueles que faz a diferença, que deixou marca e que lembraremos sempre como exemplo de que se pode servir na política de forma nobre. 

Fez 83 anos ontem.


 

 

 

 

 

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