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Tivoli, Memorias da Avenida

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Há uma herança que os que nos precederam deixaram e que é tão importante quanto as coisas físicas que nos passaram. Uma forma de estar e de cuidar do mundo, de olhar para e por ele. É um património imaterial, se quisermos "espiritual".   O livro "Cinema Tivoli, sobre a história de mais de 50 anos desta sala emblemática de Lisboa, é uma homenagem sentida - e agradecida - a tantos que foram "humildes servidores" da beleza e das artes. Antes de mais aos artistas, àqueles que fizeram sonhar, tornando as vidas daqueles que assistiram aos seus espectáculos, nem que seja por alguns instantes, lugares habitados pela poesia. Na efemeridade dum espectáculo somos por vezes visitados pelos anjos. Lembremo-nos do filme "Rosa Púrpura do Cairo", de Woody Allen, em que acontece o impossível:  a espectadora entra para dentro do filme, impulso que muitas vezes é o nosso, mas que, na realidade, se torna a metáfora por excelência de toda a grande obra de arte. Men...

3, Beleza e contemplação. Na fragilidade do equilíbrio...

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Se me pedisses para escolher um quadro, uma escultura, um qualquer objecto de arte, o que traria comigo?  Gosto muito de Monet e das suas paisagens. A pintura impressionista é bela e dá alegria à vida.  Há um pintor holandês que me impressiona pelos ambientes interiores que cria, seu nome é Vermeer. Ele pinta o simples, pinta as pessoas no seu ambiente natural. Penso que é George Steiner que dizia que ele é tão bom que consegue pintar o silêncio. Dos pintores que mais me comovem certamente que Cézanne é um deles. Eu acho que há nas suas naturezas mortas algo de espiritual, uma luz que resplandece. Uma simples cesta de frutos é uma simples cesta de frutos, mas há nela uma tal irradiação que dá vida. É uma natureza morta... que vive, que tem luz própria. Outro Mestre que tem o condão de nos fazer despertar para a alegria de vida é Matisse. Faço uma citação (Matisse, Taschen): "A Clara MacChesnay, que se admirava, em 1913, que uma obra tão «anormal» tivesse com...

2. Beleza e contemplação. Com tempo contemplo!

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A arte não se inscreve naquele tipo de coisas que tem uma utilidade: tem mais que ver com o espiritual do que com o material , com aquela asserção de Cristo: "nem só de pão vive o Homem". Qual a utilidade de uma rosa? Nenhuma aparentemente. Mas porque plantamos rosas?! Não seria porventura bem mais útil plantarmos couves e batatas, que nos dão de comer?! É porque também responde a uma necessidade que o fazemos: porque torna a nossa vida mais bonita. Por isso vamos também a concertos de música clássica ou colocamos um belo quadro na parede. Na realidade, parece assim que há uma utilidade, uma utilidade interior. O belo tem a virtude de abrir-nos às nossas necessidades últimas, aos nossos anseios mais profundos. Ele abala-nos, faz com que as nossas defesas caiam.  Edgar Morin dizia-nos que a finalidade primeira da arte é colocar-nos no estado poético , por contraste com o estado de prosa com que as nossas vidas se contam, na soma dos dias. Em certa medida, a arte é ...

1. Beleza e Contemplação. Espiritualidade moralizante - Carlo Maria Martini

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Um dos poucos autores espirituais que têm sensibilidade para o tema "beleza e espiritualidade" é Carlo Maria Martini, antigo cardeal de Milão: "Não adianta deplorar e culpar todo o mal que há no nosso mundo. (...) Tampouco adianta falar de justiça, de deveres, de bem comum, de programas pastorais, das exigências do Evangelho. Se quisermos falar disso, que o façamos com o coração cheio de ardente amor. Temos de experimentar aquele amor que dá com alegria e que entusiasma; temos de irradiar a beleza daquilo que é verdadeiro e correcto na vida; pois só essa beleza pode tomar conta do íntimo e direccioná-las para Deus". Martini sente que hoje uma espiritualidade puramente ascética ou moralizante não atrai mais as pessoas. É preciso a beleza que as fascina . Martini refere-se à beleza do mundo, do amor, das pessoas que se deixam conduzir pelo amor . Fala da beleza da mensagem bíblica, da beleza redentora, cuja expressão mais radiante foi a do amor por nós na cru...

Indivíduo

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Diz-se de indivíduo aquele que não pode ser mais dividido e não sei se o trajecto pode na verdade ser lido como se apenas uma história fosse e não apenas fragmentos de muitas histórias, umas tantas luzes que se somam, intermediadas de tantas penumbras e sombras. Eu peregrino, cajado na mão, por entre montes e vales e só essa continuidade permite dar sentido ao caminho, carregando tudo aquilo que eu sou. Diferente disso, é o acordar diário no trajecto em que o sol se apresenta como repetição, mas em que não há memória, não há apropriação. Nesse sentido, a minha vida é feita de escolhas conscientes, de uma explicação, de um antes e um depois. Há uma intencionalidade e uma direcção. Neste outro sentido, a minha vida são apenas parcelas justapostas que se ligam fruto das circunstâncias e de fugas para a frente sempre que a dificuldade se apresenta: não sou capaz de descer os "vales tenebrosos", porque sem essa ideia de peregrino apenas terá sentido o caminho à beira do rio, sem ...

3. Of Beauty and Consolation

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It is very interesting to observe how we relate to animals.  I was thinking about which  animal I would choose, if I had to pick one. This came easily: I would pick horses. In Monte Velho, in  Arraiolos, I have dealt with these wonderful animals and from time to time gone trail riding: you can go out into nature, cross beautiful fields, go to lakes and be in this harmony, while you think abour your life. It's a consolation for me. "Of Beauty and Consolation": this time we speak of Jane Goodall. Her afectionate way of relating to  chimpanzees, her stories and discoveries about them, makes me think that actually she is absolutely right when saying that animals too have feelings and are capable of long emotional bonds. Ecology is now in all our political statements. How deep should we think about this? I think it is very important indeed, because a wrong way of looking into things is threatening our planet. In Monte Velho I can observe those norther...

2. Of Beauty and Consolation

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Something impressed me about Roger Scruton: he was throughout his life a man searching for an ANSWER. He says that he felt himself quite apart from others. You can sense that this longing to arrive HOME, makes him a vulnerable man, someone sensitive and almost an unprotected child looking to rest in his mother's womb (he speaks about a divided and broken house, when he was young, much discussion and misunderstanding). There seems to be honesty in his dialogue: he opens himself and exposes his vulnerability - this is not normal in most adults. You understand that he made a long journey, most of it by himself, lonely, struggling to feel comfortable in his skin and in the world around. It is a testimonial. You don't get better after hearing and seing it. It may open some wounds. All this is because he goes through so many difficult subjects. To have FEAR of living, fear of abandoning a career for instance, or fear of having friends (!), or even of having enemies. Consolation co...