Pelo Oriente
A expansão portuguesa constitui um excelente case study de estratégia. Como uma pequena nação, ameaçada por um
vizinho poderoso, desenha um plano para vir a estabelecer-se como uma potência
económica. Antes de mais, surpreende pelo seu arrojo, pela tremenda ambição que
manifesta. Muito simplesmente, as especiarias do Oriente eram transaccionadas através
de rotas milenares, com vários entrepostos comerciais, sendo que cada intermediário
fazia-se pagar nessa cadeia comercial com a sua comissão, tendo como resultado
que o preço de venda na Europa era, em certos casos, 700 vezes superior ao
preço na origem. Os venezianos dominavam esse comércio na Europa, negociando no
espaço amplo do Mediterrâneo com mercadores árabes que traziam esses produtos
pelo Mar Vermelho e por várias rotas do Levante.
Portugal pretende acabar com essa lógica, criando uma rota
alternativa, pelo Oceano Atlântico, rota ainda não explorada, indo directamente
à fonte, substituindo-se assim a todos os intermediários. Para esse plano,
metodicamente seguido ao longo de décadas pelo Estado Português, contribui decisivamente
o conhecimento acumulado e o esforço persistente de não desistir, pesem embora
as dificuldades. Para dar um exemplo, Bartolomeu Dias descobre a passagem do Cabo
das Tormentas em 1487, pretendendo continuar, mas um motim na tripulação
obriga-o a regressar. Vasco da Gama chega a Calecute em 1498 e descobre-se
finalmente a ligação com o Oriente. Para dar uma ideia do que constituía a
relevância económica desse empreendimento, ao chegar a Lisboa, a estropiada
armada de Vasco da Gama, onde se tinham perdido mais de 170 homens pelo
caminho, trazia nos seus porões especiarias que correspondiam a um valor 60
vezes superior ao custo de toda a viagem.
No entanto, em obediência à verdade histórica, não foi apenas essa
descoberta que permitiu mudar o paradigma: Portugal, enfrentou as maiores
oposições nomeadamente dos mercadores árabes que dominavam o comércio no Oceano
Índico e que, naturalmente, viram nos portugueses alguém que ameaçava a sua
posição. Portugal, sem qualquer inocência, percebeu que teria que agir pela
força - e assim o fez.
Calecute foi violentamente atacada pelas armadas portuguesas,
enquanto Cochim se tornou um importante aliado de Portugal no Malabar, mas
perto de Cochin houve uma importante batalha que ajudou a consolidar a presença
portuguesa no Índico, e onde as frotas inimigas dos portugueses chegaram a ser
auxiliadas por navios turcos e egípcios (estes últimos financiados pelos
venezianos).
Afonso de Albuquerque foi o grande obreiro do desenho dum Império
Português no Oriente, que passou por ocupar alguns pontos estratégicos como o
Estreito de Ormuz, tão na ordem do dia na política internacional. Quem
dominasse militarmente esses pontos dominaria o comércio e Albuquerque fê-lo sem
contemplações e com toda a ferocidade. Os navios portugueses, artilhados com
canhões de carregar pela culatra, inovação portuguesa, davam uma vantagem
evidente nessa corrida, o que teve como efeito que as frotas portuguesas
passassem a ser vistas com grande temor. Essa fama espalhou-se a tal ponto que provavelmente
não será por acaso que o nome de Caravela Portuguesa é o nome comum como é ainda conhecida
a Physalia physalis, por vezes confundidas
com alforrecas, um organismo extremamente tóxico. Trata-se não dum animal, mas de
uma colónia de indivíduos especializados em diferentes funções que, em
conjunto, formam um único organismo. Flutua na superfície do mar impulsionado
por ventos e correntes, com a ajuda do pneumatóforo, um flutuador em forma de
balão, que se assemelhavam aos navios portugueses. Os seus tentáculos podem
atingir até 30 metros de comprimento. Esses tentáculos possuem células urticantes que libertam um veneno potente, capaz de causar queimaduras graves, choques anafilácticos e, em casos raros, ser letal. Numa escala de 0 a 10 de níveis de dor, a picada de uma Caravela Portuguesa, está frequentemente associada ao nível 9...
Publicado em 1969 durante a Primavera Marcelista, o livro “Portuguese
Seaborne Empire” de Charles Boxer, grande estudioso da Expansão Portuguesa do
Oriente, criou algum desconforto no Estado Novo que o houvera anteriormente
consagrado com várias condecorações, porquanto adoptou uma postura mais crítica
e desmistificadora, focando-se no lado humano. O conservador Charles Boxer,
passou a persona non grata por um estado
que tinha uma retórica ligada a uma excepcionalidade da maneira portuguesa de
estar nos trópicos.
No caso da ilha de Ormuz a primeira tentativa de sua ocupação
ocorreu em 1507 onde se começou a edificação de um forte, mas a conquista
definitiva por Albuquerque ocorre em 1515, com uma armada de 27 navios. O
domínio desta região foi central para o Império Português, permitindo desviar o
fluxo de riqueza das especiarias e taxar todo o tráfego marítimo entre a Índia
e a Europa. Haverá alguma coincidência com os tempos actuais?!
Portugal manteve a sua influência e controlo sobre Ormuz por mais
de um século. Com a sua perda, passou para o outro lado do estreito, em Omã,
onde construiu uma série de fortes e dominou a sua capital, Mascate. A perda de
Mascate ocorreu 150 anos depois e há lendas que a associam a uma história de
coração. Pereira, o governador poderoso apaixona-se por Chandra, filha de
Narrotum, um rico mercador originário do Guzerate, na Índia, que se encontrava
sediado na cidade. Movido por esses sentimentos, pediu-a em casamento. O pai
respondeu-lhe que para tamanha honra teria que preparar um dote que esteja à
altura de Pereira, o maior mais alto dignatário da cidade. Para assim o fazer, solicita-lhe
que o casamento seja apenas se realizasse marcado para dali a um ano... Pereira
concordou e esperou pacientemente. Pouco tempo depois, o mercador foi ter com
Pereira para discutir os planos preparativos da festa de casamento. Pediu-lhe
que o casamento seja fosse celebrado no forte de Mirani, cobrindo-se o mesmo
forte de panos ricos, exibindo a quem o contemplasse, em sinal da festa a
riqueza e alegria daquele casamento. Mas o pai da noiva tinha outro plano em
mente. Começou por alertar de que os armazéns depósitos de água no forte
estavam putrefactos, que os cereais já não estão também em bom estado. E o
mesmo acontecia com a pólvora húmida e inutilizada. Convencido, o Governador dá
ordens ordenou que tudo fosse removido e substituído para se executar o que pai
da sua noiva sugerira. Assim, enquanto o forte era preparado para o casamento e
estava a ser sujeito a uma limpeza total, o pai da noiva mercador enviou uma
mensagem ao Sultão Bin Saif I, que aguardava pelo melhor momento as redondezas
para atacar. Assim desprotegido e, sem possibilidade de usar utilizar dos seus
canhões, uma cidade que ninguém conseguia tomar, caiu facilmente às mãos
dos omanitas.
Assim acabam impérios também!

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