Querido sobrinho

Querido sobrinho,

O nome Vicente tem origem no latim: Vincentius, derivado do verbo vincere, que significa “vencer”. Pode ser traduzido como “o vencedor”, “o conquistador”, ou como “aquele que prevalece”. É um nome clássico associado a força, resiliência e determinação. Ora, voltando a si, o nome assenta-lhe como uma luva!

Sei bem da sua paixão pelo futebol, como vibra com o Sporting. Num jogo, defrontam-se duas equipas que disputam uma bola, cada uma delas tentando trocá-la entre si, fintando o adversário para progredir no campo e chegar o mais perto possível da baliza contrária e marcar golo. E depois, a alegria que se segue à bola que atravessa a linha de golo une a equipa aos seus adeptos em celebração e êxtase. É um momento mágico de consumação, o prémio merecido pela jogada construída a partir do talento das chuteiras, nas suas corridas pelo campo, descobrindo os espaços abertos deixados pela equipa adversária. A vitória cabe aos que mais golos somam, uma aritmética simples que traduz o resultado de 90 minutos de jogo em campo, divididos em duas partes. No entanto, nesses 90 minutos, quantos nervos, quantas emoções experimentadas e quanta energia libertada! Num jogo que, afinal, pouco tem de matemática – em que basta que aquele craque não esteja nos seus melhores dias, ou que um central cometa uma distracção que comprometa todo um jogo até ali feito de esforço e entrega e dite um desfecho desfavorável! 
Há evidentemente aqueles magos com “fome de golo”, que nos dias de inspiração conseguem desequilibrar as forças e fazer pender a balança para o lado da sua equipa. Nesses dias, somos nós também que triunfamos com eles: há um contentamento transbordante, que nos anima a acreditar que tudo é possível, que nem o céu é um limite. Fome de golos, fome de bola, afinal “fome de vida”: quem se move com essa agitação não é de meias-tintas. É precisa paixão para triunfar, para ser “Vicente”, vencedor. Que o diga Diego Maradona, aquele fenómeno, expoente maior que conheci. Atravessava o campo, pequeno, rápido, rapidíssimo, genial nas fintas, nos dribles a um e a outro e a mais um, e a outro ainda. Era tal a paixão que o movia que frente a Inglaterra não conseguiu evitar colocar a sua mão na bola para a desviar para a baliza. A “mão de Deus”, segundo o próprio. Ficou-nos o caricato da situação, desse El Pibe (nome porque ficou conhecido), a quem a paixão acabou por levar por alguns perigosos caminhos, embora ninguém o esqueça e quase todos o perdoem pelas suas faltas. 

Uma primeira recomendação que darei Vicente (serão apenas 3): interesse-se pelas coisas, seja essa pessoa que vibra de forma viva! Assim como faz com o futebol! Procure o que o apaixona, vá atrás do que o motiva! Nunca seja indiferente, porque a sua natureza não é a de se deixar arrastar simplesmente. Há quem seja morno, você não é. E como tal, não se conforme a um mundo que não é aquele onde se sente bem. Se não concorda com algo, diga porque não concorda. Explique-se. Use a sua inteligência. Argumente. Mas nunca, jamais, encolha os ombros, em expressão de quem não quer saber. Ter o entusiasmo que significa ter brilho nos olhos e literalmente “estar acompanhado de Deus” (que está sempre do lado de quem faz aquilo em que acredita), é bater-se pela vida. Ir à luta, assim mesmo como os grandes craques do futebol fazem.

Uma segunda recomendação Vicente: ter amigos é muito importante. Alimente a amizade como uma das plantas mais importantes do seu jardim. Fazer caminho com outros, partilhando experiências torna a nossa vida mais interessante. Procure aquelas pessoas com quem se sente à-vontade e que sabe que gostam de si pelas razões certas: pela pessoa que é. Com os amigos descobrimos o mundo - e há tanto para descobrir! Com eles passaremos bons momentos, faremos muitas coisas juntos. A vida é para ser gozada, para aproveitarmos e para, entretanto, irmos aprendendo algumas coisinhas.   

Terceira e última recomendação Vicente: cada um de nós tem uma estrela cá dentro. Quando ela está bem, essa estrela brilha, vivemos alegres e iluminaremos também com essa luz os ambientes à nossa volta. Encontrar essa luz e fazê-la irradiar mais e mais é o trabalho de toda uma vida. Aprenderemos a encontrá-la também muito com a ajuda dos outros. A ajuda de quem é mais experiente que nós é, certamente, fundamental. Quando temos dúvidas sobre os caminhos a seguir, é bom ouvir o conselho de alguém em quem confiemos. Pode ser conversar com alguém da família (um tio por exemplo!), pode ser com um professor, um padre. É normal ter dúvidas, hesitar sobre o que fazer - e é muito bom podermos contar com o conselho de pessoas que querem o melhor de nós e nos conhecem. Tente alimentar a sua estrela, não apenas materialmente. Alimente o seu interior com coisas boas: pensando, aprendendo, lendo, conversando, rezando, fazendo voluntariado (aí ganhamos mais pontos do que em todos os jogos de computador que possa imaginar). Também quando estamos a sós podemos aproveitar o tempo e não ceder à preguiça. Interessado pelo que se passa à sua volta, pelas pessoas que não tiveram a mesma sorte que eu e você que crescemos numa família estruturada a quem nada faltou, curioso e apaixonado pela vida, com tantas coisas para agradecer… e também para oferecer ao mundo, assim a sua estrela brilhará! 


Um abraço amigo, do tio Duarte

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