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Mergulho no mar

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A aproximação não é fácil porque o mar não é muito convidativo: a beira-mar inclinada a obrigar o bíceps da coxa a estar em tensão, as ondas desobedientes a uma ordem certa e, sobretudo, o primeiro impacto dos pés com a água desencorajante, por razões eminentemente térmicas.   O corpo entrando no mar: os músculos, alguns deles retecidos, outros como os da barriga encolhidos, o esqueleto em sentido. Duas estratégias diferentes: permanecer esperando até que, já banhado pela espuma e salpicado pelas ondas, em gestos tímidos se avança passo a passo; acometer-se num mergulho - cuja decisão ainda assim é por uma ou duas vezes adiada - à frieza das águas. Eu acho que nunca se entra na água da Praia Grande sem certa dose de ímpeto afirmativo; sou pois absolutamente defensor da segunda estratégia definida. Poderia haver aqui um quê de exibicionismo, mas manda sobretudo a fidelidade a uma identidade pessoal filiada a uma pertença colectiva. Mas, para mim, é antes de mais e acima de tu...

Jorge Silva Melo e Lisboa. Aprende-se a mudar até morrer!

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Jorge Silva Melo é um homem de quem eu gosto. É uma pessoa honesta, interessante, que diz o que pensa. Não alimenta ódios.  Não tem uma coisa que me irrita em muitas pessoas de esquerda que é acharem-se detentores da verdade e, mais do que isso, terem um discurso arregimentado. Encontro esse discurso muito arregimentado no "mon ami" Soares. O velho Soares sempre se achou com direito de discutir quem são os bons e quem são os maus, quem os que se deve amar e quem se deve despeitar. Ouvi-o hoje numa entrevista na Antena2. É uma pessoa com uma memória prodigiosa. É um tipo agradável, simpático, um bom conversador, parece muito humano. Não o conheço muito bem, mas gosto dele. Hoje dizia na entrevista que deu, que a sua Lisboa encolheu. Ter-se-á tornado a cidade menos interessante?! No outro dia falava eu com umas turistas belgas e lhes dizia que, para mim, a cidade de Évora é a cidade mais bonita de Portugal... depois reflecti cá para mim... será mesmo?! Seria eu capaz de of...

Frescos

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Terminou há dois dias uma série que passou na RTP, inspirada na Guerra e Paz de Leo Tolstoi. Feita pela BBC, divide-se em 6 episódios. Uma história bem contada, com uma clivagem talvez maniqueísta  entre bons e maus  - mas, por isso também interessante, porque cheia de contrastes e que em todo o caso seria provavelmente difícil de quebrar numa série - mas em que o principal é transmitido, isto é, a redenção que nos surge muito pela depuração de si próprio, pelo grande instrumento do sofrimento e do tempo. O nome não podia ser mais indicado: é guerra e paz no mundo material, a alternância entre estabilidade e instabilidade no período conturbado das Invasões Francesas; mas são sobretudo os tormentos do coração e as grandes paixões da alma que dão continuidade e que, sob o cenário dos encontros ou desencontros que o movimento das tropas vai potenciando, vão tecendo a história e as suas personagens.  Agora só falta ler os vários volumes! Não há muito tempo li o Leopard...

Beleza

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O que é a beleza? Duvido que alguém não a reconheça quando a vê, ela é completamente evidente. Um exemplo: uma mulher bonita, ninguém fica indiferente. A beleza toca-nos. Uma bela paisagem, alguém duvida que ela o seja? Mas será que ela é solene? Solene, no sentido em que ela é formal? Poderemos nós, hoje, ter o culto apenas do banal? Do que é normal? Mas eu creio que a beleza não é solene, ela pode ser solene, Versailles é solene, mas uma casa de pedra numa pequena vila de França, um cottage numa quinta inglesa, um ribeirinho a correr com água fresca, são imagens de beleza que nos dão paz, e não são solenes. Uma paisagem pode ser solene: a descida para a Fajã do Santo Cristo nos Açores é uma imagem solene. É duma solenidade quase religiosa. Divina. Mas a fealdade também pode ser solene. Vejamos a opolência de um Ceausescu em Bucareste no seu horrível palácio; a solenidade da Coreia do Sul.  Não, a beleza não é solene.  A beleza só nos faz acordar e por veze...

Escultura

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Do que mais gostei quando visitei Roma ou Paris foi de ver escultura: na Villa Borghese em Roma uma pequena colecção de Bernini transporta-nos para outro mundo; em Paris, no Museu Rodin, ali bem perto de St. Germain, entramos num universo táctil em que o corpo humano transparece na sua mais expressiva das maneiras. Bernini é sublime, um génio que parece dar vida ao mármore branco. Dos aspectos de que mais gosto em Rodin é das mãos, da beleza do conjunto que as mãos representam: a mão é sempre mais que a soma dos dedos. Rodin dizia que a forma vem antes da idéia. A plasticidade dos materiais, o moldar a matéria, a luz e as sombras: a obra que se faz. A felicidade que deve ser esta vida de criação, dominando a técnica e fazendo descobrir o que as formas vão mostrando. O processo criativo do desbravar, do rearranjar à medida que o olhar vai pousando na peça que vai sendo sujeita ao escopo e ao martelo. O corpo humano é uma peça de arte, velho ou novo, nele está um objecto c...

Oportunidades

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Creio que uma das razões porque Robert Kennedy afirmou que se dedicava à causa pública era porque dizia que tinha sido muito abençoado na vida e que tinha tido oportunidades que faziam dele um privilegiado. Recentemente, enquanto os vários canais de televisão faziam um apanhado dos melhores e mais marcantes momentos do ano, dei por mim a ver a muito aguerrida e muito pouco feminina Serena Williams, a já há vários anos n.º 1 Mundial de Ténis.  Lembrei-me dos meus tempos de voluntariado com jovens em Sintra, em que além doutros tínhamos uma família de vários irmãos, em que preponderavam 2 irmãs bem activas e enérgicas. Eu baptizei-as de "irmãs Williams".  O fenómeno do sucesso de Venus e Serena deve-se talvez a um pai fora-de-série, que dum bairro pobre lutou para que as suas filhas fossem "alguém na vida". E de facto conseguiu. A experiência do Kápati (Cá-Para-Ti), o tal voluntariado em que estive durante muitos anos envolvido foi uma experiência humana ex...

A Capelinha

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O primeiro encontro "a sério" com a "Senhora Marquesa" foi há já muitos anos, quando o meu primo Nuno e eu, rapazes de calções e aventureiros campesinos, nos encontrámos à saída da Capelinha da Piedade e recebemos um convite inesperado. Havia o hábito, já do meu avô Augusto, de lá ir aos Domingos à missa do meio-dia; o meu pai brincava sobre o Frei Francisco (que mais tarde vim a saber ser um franciscano de grande prestígio nos meios da história, um estudioso, e que dava pelo nome completo de Francisco Leite de Faria) que - por tão velhinho e por ter uma voz tão arrastada, dizia sair da gaveta sempre que rezava missa. Era a chamada "missa da gaveta", com o "Pe. da gaveta"! Ora, estava eu a dizer, ao início, que certo dia, penso que depois de irmos cumprimentar a Senhora Marquesa, que ela nos diz para irmos a casa dela que tinha uma coisa para nós. Os dois, contentes, em pouco tempo batemos à sua porta, na Quinta da Piedade. O Milro - o chauffe...