Mensagens

De volta

Imagem
1. Regressei a Portugal faz agora 13 dias. Sinto-me bem de volta a Lisboa, gosto muito do estilo de vida que tenho nesta cidade. Em Belo Horizonte estive a conversar com o Marcus Martins, arquitecto/urbanista, pessoa que conheci no ano passado através do Vasco meu irmão. Não é novidade, mas o Brasil vive presentemente numa grande crise. Desnorte, falta de identidade, corrupção generalizada. Há uma descrença enorme no seu Futuro. O Marcus quer sair do Brasil, ele tornou-se para si um local onde não quer viver. No Rio de Janeiro, uma iniciativa chamada "Reage Rio" procurou discutir uma série de questões-chave para o futuro da cidade. A primeira questão é a da segurança (desde o início do ano, já morreram 100 polícias) e o narcotráfico prolifera. Depois de 2 dias de debate, aprovaram 50 medidas, em aspectos que vão da segurança, da economia e da promoção do empreendorismo, à mobilidade e à promoção de uma sociedade mais ética. Embora sendo uma iniciativa meritória, o Marcu...

Portugal no divã

Imagem
Certas nações têm dificuldade de se recompôr da perca da sua grandeza. Vivem numa nostalgia letárgica entre o muito que foram e o pouco que são: a Grécia inventora da Democracia, onde foi possível discutir com um Sócrates as mais altas questões, leituras que espantam pela sua intemporalidade e que ficaram gravadas pela pena do seu discípulo Platão; um presente triste, feito de dependèncias e escassez. Pergunto-me se há civilizações melhores do que outras. Porque é que os EUA se tornaram a maior potência mundial, porque é que países como a Austrália ou a Nova Zelândia deram certo e são exemplos de democracia. Haverá algo de superior na cultura inglesa, numa moral protestante? Estou a terminar a minha viagem pelo Brasil, este enorme país - só a Baía onde estou é certa de 4 vezes o tamanho de Portugal. Como foi possível um tão pequeno país se abalançar a tanto?  Os Descobrimentos foram temporariamente o garante da independência portuguesa: o plano extraordinário de...

Enamorado da história do meu País, samba da benção

Imagem
"Eu, por exemplo, o capitão do mato/Vinicius de Moraes/Poeta e diplomata/O branco mais preto do Brasil/Na linha direta de Xangô, saravá!" Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1963 O sincretismo religioso, expressão que aprendi com Senhor Mário de Jesus, que me mostrou uma mesa cheia de "balas" e "docinhos" para dar aos "menino de BH" numa festa no final deste mês (será São Conrado?!), mostra a protuberância que a negritude assume no Brasil. Jorge Amado no seu livro/ roteiro da Baía explica os cambomblés e o Senhor do Bonfim, que de cristão já pouco tem: se a história é feita de inúmeras camadas, no Brasil, a camada negra é em certos locais tão forte e expressiva que apaga as demais; mesmo o catolicismo, que os portugueses cá deixaram, um catolicismo bem apostólico/romano se torna apenas o pano de fundo para no seu barroco dar maior expressão à cena que se passa na realidade. Em linguagem botânica, plantaram um lindo jardim de árvores de frut...

Em Tiradentes

Imagem
À memória do Tio Duarte Mayer de Carvalho,  mestre na arte do encontro Sentado numa boa poltrona, no Solar da Ponte, o mais bonito solar de Tiradentes, escrevo esta pequena crónica. O meu dia começou em Belo Horizonte e até cá chegar andei cerca de 200 km, vindo de automóvel. Embora o meu plano fosse começar a fazer economias - assim como uma dieta, pois os gastos duma viagem desta não são para menosprezar... explico porque escolhi um alojamento caro: Uma das minhas amizades em Belo Horizonte foi a dum segurança do Museu do Estado de Minas Gerais, o Senhor Mário de Jesus, alguém que quando soube que eu era português ficou muito feliz. O seu irmão é Vice-Cônsul em Lisboa, no Chiado (perto de minha casa portanto). Ele próprio é descendente de portugueses (duma aldeia perto da Serra da Estrela). Conversámos e fiquei a saber que ele vivia entre Belo Horizonte e Ouro Preto. Pensei cá para mim: "tenho um amigo já em Ouro Preto", para onde quero ir na 4.ª feira. A nossa...

Deambulações em terras brasileiras

Imagem
O Duarte Stock foi determinante para a viagem que agora já vai quase a meio. Encontro-me em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. Acordei cedo, estava fresquinho e fui dar uma volta a pé. A vista do meu quarto no 12.º andar dá logo uma perspectiva duma cidade de altos edifícios e o passeio pela rua um sabor tropical, em que as altas e finas palmeiras parecem que pretenderam dar a toada da construção em altura - mas hoje apenas embelezam a rua e lembram outros tempos. Um variado de árvores com flores coloridas, um chilrear de pássaros por todo o lado, o relevo da cidade e a largura das avenidas dão um sentimento de bem-estar - enquanto no cruzamos com todo o tipo de gente. Fui ao Mercado Central e fui transportado para o Grande Bazar de Istambul, onde se comercializa especiarias e frutos secos, roupa, animais, bugigangas e todo o tipo de coisas, em bancas de homens de faces fenícias ou não fossem os chamados "turcos" uma das maiores vagas migratórias para este Brasil plural...

Questões fracturantes

Imagem
A agenda política faz-se de proclamações e bandeiras, muito pouco ao jeito de discussões serenas onde os assuntos podem ser aprofundados, para bem de todos. Volta e meia, vêm à liça estes temas ditos "fracturantes". Sou voluntário numa casa de velhos abandonados por todos. Umas almas caridosas, umas santas recolhem-nos das ruas. São velhos e doentes. São pessoas que tiveram problemas com a justiça. Pessoas sem eira nem beira. É triste ver a vida humana frágil e incapaz, e a esgotar-se num dia-a-dia sem esperança. Mas sinto naquele ambiente um amor e uma solidariedade que me lembra o amor que se vive em família. Na dificuldade e na carência, há ali gestos duns para com os outros que me fazem gostar de ir lá uma vez por semana. Acamados e sem quase falarem, sinto que as minhas mãos são mãos que tratam seres humanos e que saio sempre mais rico do que quando cheguei. O tocar com as mãos outro ser humano é uma experiência real e muito concreta. Se não vivesse aquilo não poderia...

Crónica do Tempo que Passa

Imagem
Procurar a felicidade. Nos gestos do dia-a-dia. Sinto-me feliz pelo que faço. A profissão de advogado em que o meu cliente espera de mim alguém que o ajude. Por vezes duvido das minhas capacidades, mas o engraçado é que os meus clientes gostam do apoio que lhes dou. É difícil pôr-nos fora de nós e perceber o impacto que causamos à nossa volta. Ando há algum tempo a tentar vender a minha casa em Sintra - há mais de 6 meses. Pensei que fosse mais rápido. Todos me dizem para fazer alojamento local lá. Se calhar é uma excelente idéia. Mas as idéias que muitos outros têm antes de mim não me agradam. Sou uma pessoa embirrenta, que tudo o que vira moda se torna repelente para mim. Por exemplo, quando todos falam em determinado livro, que é um espectáculo, que é um bestseller, nunca me apetece comprar. Aconteceu com o Equador de Miguel Sousa Tavares, aconteceu também com os Pilares da Terra daquele autor inglês. Não gosto de percorrer o caminho mais percorrido, gosto sempre dos caminhos ...