Uma avalanche de boas emoções

As emoções são selectivas e gostam de andar em grupo, associando-se sempre em duas grandes famílias: a família das boas emoções e a das más emoções.

Andam unidas, de mãos dadas, vão para todo o lado juntas. Há nelas uma tal solidariedade que o medo não gosta de estar sozinho e normalmente procura a ansiedade; esta por sua vez é muito amiga do nervosismo. A família é grande, vê-se nelas a marca da negatividade: umas delas são mais afins do que outras, como por exemplo entre a preocupação e a ansiedade notam-se parecenças evidentes como o senho vincado e as costas curvadas em sinal de peso que carregam. De tanto aparecer a preocupação, a ansiedade acabou por se sentar em permanência na sala - e insiste em não sair.

Enquanto a negatividade se junta numa amálgama de dores e pesos, a outra família é mais ligeira e gosta do riso. Gosta de se passear no parque, apreciar os pores-do-sol e correr pela manhã junto ao rio, sentindo no rosto a frescura do dia a nascer e o cheiro a maresia. Sente-se bem neste acordar, na sensação de estar vivo. Embora não convidados para os passeios, ou os pores-do-sol, há uma expressão mal-educada em certos elementos da família contrária, despontando aqui e ali atrás de uma parede, e querendo-se juntar ao grupo da família das boas emoções, para ir introduzindo alguma da sua negatividade, reduzindo o prazer da experiência que a família do lado solar vai gozando. Quando isso acontece, a alegria vai tentando defender o seu campo, acusando a presença de nuvens que pretendem ensombrar as vistas. 

Mas depois de muitas e muitas noites bem dormidas, muitos passeios pela manhã e muitos pores-do-sol, cada vez menos a tristeza apareceu. Hoje a paz vive lado a lado com a alegria e o entusiasmo. 

Foi assim: estabeleceu-se um pacto entre todos para que só as boas emoções pudessem passear-se junto ao rio e ao mar. E de repente parece que se percebeu que só havia uma família, a outra era meramente a sombra da caverna de Platão. E passou a viver numa avalanche permanente de boas emoções. 


   

 

Comentários

Homeland Fernandes disse…
Boa noite. Estou em investigação para um mestrado na área das Ciências Sociais e da Psicologia, ao fazer investigação para o mesmo, acerca da ansiedade / depressão, encontrei este Blog.
Decidi inscrever-me para tomar posição. Fantástica a descrição dada pelo Autor. Tenho 47 anos e apesar da experiência da vida, 47 anos já não são um livro aberto como os 20 anos, raramente li algo tão belo. "As emoções são selectivas e gostam de andar em grupo", "duas grandes famílias", "a família das boas emoções e a das más emoções."
"Andam unidas, de mãos dadas, vão para todo o lado juntas.". "Há nelas uma TAL SOLIDARIEDADE que o medo não gosta de estar sozinho e normalmente procura a ansiedade; esta por sua vez é muito amiga do nervosismo."
"entre a preocupação e a ansiedade notam-se parecenças evidentes".
"De tanto aparecer a preocupação, a ansiedade acabou por se sentar em permanência na sala - e insiste em não sair."
E fico-me só pela "família" negativa descrita de forma sublime, porque a positiva toda ela está cabalmente bem explicada.
Muito obrigado por este encontro. Bem-haja. Continuarei a leitura.

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