Dom Entusiasmo

As pessoas que mais admiro são aquelas que vibram com as coisas, que encontram no dia-a-dia motivos renovados para se alegrarem.

Mas isso leva-me a pensar no seguinte: da mesma maneira que temos um aparelho digestivo que processa os alimentos, a nossa vida emocional depende daquilo que entra em nós e da gestão que fazemos desses "alimentos", por assim dizer. Há uma digestão emocional que importa realizar.

E veio-me ainda a seguinte ideia: ontem pensava que muitas vezes se acusa os advogados de terem feitios terríveis e serem mal-humorados. Creio que tal se deve, de facto, àquilo que deixam entrar em si e que acabam por não saber processar da maneira mais adequada. Em verdade, não é fácil, pois a carga emocional pode ser muito negativa e há como que uma espécie de "contaminação".

Cuidar da nossa vida emocional é de facto uma higiene necessária. Viver contrariedades, dificuldades faz parte da nossa caminhada. 

Em primeiro lugar devemos ganhar alguma distância, não absolutizar o problema que estamos a viver. Os problemas têm a importância que lhes quisermos dar. As visitas indesejáveis à nossa "casa emocional" duram o tempo que lhes quisermos dar.

Por outro lado, a riqueza da vida abre-se-nos diariamente. 

Uma autora de que gosto muito é Susana Tamaro: há nela um perscutar atento da vida, dos cambiantes que ela nos oferece, um fascínio pelo mistério das coisas, um entregar-se à passagem do tempo e à mudança das estações, cada uma dela com os seus ritmos e rituais próprios. Ora, o que fazemos quotidianamente depende da atenção que damos - e por vezes andamos simplesmente a arrastar os pés, apáticos e adormecidos.

Por isso gosto também de voltar por vezes ao Principezinho. Há nele uma inocência que me agrada, uma curiosidade espontânea.

Os senhores do mundo são sempre muito opiniosos, gostam de "botar sentença"; o Principezinho regista tudo e guarda a sua independência, a sua liberdade. Os dramas que os adultos fazem demonstram o extremo nervosismo, uma certa doença de espírito, obsessões compulsivas que lhes prendem os movimentos.

Regar uma flor de manhã, alimentar um animal que nos diverte, apreciar uma paisagem, dar um mergulho no mar e nadar, passar os olhos por uma boa revista que mostra ambientes calmos e serenos de casas de campo, beber um copo de água fresca num dia de calor, gozar um belo duche, acordar para ir ter com um amigo para jogar uma bela partida de ténis, encontrar-nos repentinamente com alguém com quem já não estávamos há algum tempo, ouvir uma bela música... São pequenos nadas que nos introduzem na lógica do dom. Vale a pena procurar esses prazeres.

Procurar o entusiasmo não é criar um conjunto de razões que nos levam a estar felizes. Como diziam a Etty Hilesum, "há que passar da cabeça para o coração". É dar ao coração oportunidade de viver, de sentir, de respirar - e ele está muitas vezes abafado.







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